domingo, 15 de dezembro de 2013

A História do Menino V


A História do Menino V




Fernanda Machado Freitas


A senhora começou a me contar que as pessoas possuem muitas vivências e assim como ela, eu também tive outras vidas antes de nascer como Augusto, o Negrinho. Falou sobre termos tido muitos nomes, vivido em locais diferentes e ter tido muitas convivências. 


Ela começou a contar a historia de um jovem de cultura significativa, que amou muito uma moça que trabalhava cuidando de livros. Disse-me que a jovem era uma bibliotecária, numa cidade do norte europeu. Não entendi bem o que era norte europeu, mas alguma coisa estava diferente. Cada vez que a senhora falava, parecia que as imagens se formavam em minha cabeça e eu podia ver a terra de onde a jovem era. 

Neste momento, vi um rapaz caminhando de braços dados com a bibliotecária que era uma moça bonita e percebi que ele sentia muito amor por ela. Apesar do belo sentimento de amor que existia entre eles, o rapaz era apegado a posses, a vaidades e desejava muito ser parte de uma elite social. O grande afeto, que ele nutria pela jovem bibliotecária, não o impediu, porém, de se envolver com outra jovem que conheceu.


Uma jovem rica, de família tradicional, tinha atributos suficiente para fazer com que ele não hesitasse em deixar para trás toda felicidade e amor, que poderia viver com a jovem bibliotecária. Escolheu preencher seu coração com vaidades. Casou-se com a jovem rica sem pensar na dor e sofrimento, que a menina trabalhadora e esforçada teria. Não foi bom esposo. Não foi bom pai. Pensava apenas no que ganharia materialmente. 

Fiquei surpreso nesta hora. Vi nos olhos da jovem bibliotecária o sofrimento com a perda do amado e o mais surpreendente, vi neles o mesmo olhar da moça da fazenda, a mãe do menininho que morreu! Eram as duas, na essência a mesma mulher! Nada mais compreendi! A senhora pegando em minha mão, disse para ter calma, pois tudo me chegaria ao pensamento com mais exatidão, pouco a pouco. Disse ainda que nada é por acaso e que todas as historias se conectam.


Despediu-se e fiquei ali, acordado, pensando. Queria entender a razão de ver a mãe do menininho ali, como a jovem bibliotecária, com outras roupas e em outro lugar... Aquela mesma moça, que sempre teve um olhar carinhoso quando olhava para mim na cerca, que apesar de ter perdido o filho, rezava e pedia para eu estar junto do filho dela, sendo cuidado por Deus. Não encontrava respostas. 


Pensei tanto, que a exaustão me dominou e dormi novamente.
Quando estava dormindo, meu sono foi tumultuado. Via o rapaz branco, que trouxe tanto sofrimento para a jovem sonhadora e trabalhadora. No sonho vi que a jovem havia se casado com um homem bom, mas nunca esqueceu o amor que sentira pelo rapaz ganancioso. 

O marido dela, trabalhava guardando dinheiros e pertences de pessoas abastadas. Ela foi feliz ao seu lado. O amou de um modo diferente, mais amigo e paternal e sempre foi grata a Deus por ter lhe dado a companhia de um homem bom, excelente pai e que a amava verdadeiramente! Teve três filhos homens e honrou seu casamento.

Na mesma hora, eu já não estava mais ali, me via na beirada de um grande lago, agachado, vendo um homem suicidando. O homem sofria desesperadamente pela perda da mulher amada que o abandonou. Queria se matar para não ter que viver uma vida sem a amada e também para castigá-la. Ele tinha um amor enlouquecedor pela mulher que o abandonou. Sem forças para viver sem sua companhia e seu amor, cortou os pulsos com uma faca, cuja navalha estava especialmente afiada para facilitar seu intento.


Acordei com o peito apertado. Uma hora eu era de um jeito, em outra tinha outro corpo e via aquelas coisas acontecendo... O que me chamou atenção era a presença, sempre marcante, da mãe do menininho que caiu no buraco e morreu. Ela estava lá, hora como a jovem bibliotecária, hora como a mulher que abandonou o homem suicida... Lá estava ela. Lá eu estava, vendo tudo, mas ainda sem compreender. 

Senti vontade de me levantar. Afastei o lençol para o lado, vi minhas pernas e pés sem faixas. Abri um grande sorriso. Estiquei as pernas para fora da cama e me ergui. Percebi que era um homem adulto. Branco, média estatura, magro, pés compridos e finos. Usava uma roupa parecendo um avental que cobria minhas costas e minha frente até o meio da canela. 

Percebi que estava ligado a um cano fininho transparente, com um remédio que caia em minha veia. Uma agulha fininha estava fincada em meu braço. Tentei movimentar e ir até uma janela que estava próxima. Era possível arrastar o remédio que ficava preso sobre uma haste.

Cheguei à janela e vi um cenário tão bonito! Tive vontade de ir lá fora. Tinha tanta flor hortênsia na beirada dos caminhos... Precisava ir até lá! Nesta hora, um homem jovem chegou perto de mim e disse, de forma branda, que não poderia sair ainda. Precisava me recuperar, me fortalecer. 

Segurou o meu cotovelo esquerdo e me conduziu para a cama. Fiquei um pouco nervoso. Por que não me permitiam ir lá fora? Eu era prisioneiro? O que eles fizeram comigo? Não era mais o negrinho, tinha sonhos estranhos e agora esta! Não poderia sair... Alguma coisa estava muito errada! Fiquei zangado e quis brigar como o homem, mas na mesma hora, cai.

Fui para o chão como se fosse uma folha caindo de uma árvore. Não entendi o que aconteceu e tentei me erguer. Imediatamente percebi que minhas pernas sangravam e sangravam muito! Fui socorrido por mais outros dois homens vestidos de branco que me colocaram sobre a cama novamente. Deram-me água e injetaram outro remédio no líquido que caia em meu sangue. Dormi.

Acordei um tempo depois e estava mais recuperado. Tive permissão para sair e caminhar pelo jardim. Tive muito medo de me dirigir às outras pessoas de lá, mas aos poucos fui me acostumando a esta nova realidade. Ao novo corpo, a nova forma de ser, a calma daquele lugar. Passei a estudar, aprendi a escrever, tive acesso a acontecimentos passados e muita coisa se esclareceu para mim. Me vi por longo tempo, depois que descobri que o menino havia caído no buraco e morrido, procurando-o e ao encontrá-lo eu  seguia, sempre tentando ajudar, para compensar todo o mal que acontecera.  

Foram muitas histórias diferentes, o menino vivendo em outras realidades, mas algo me trazia para perto dele, sempre para perto dele e ali permanecia, invisível mas presente, tentado ajudá-lo. Vida após vida o menino manifestava algum problema nas pernas e eu tentava diminuir toda angústia e trauma que ele tivesse. 

Um dia em meus estudos, pude ver na tela de visões retrospectivas, o despertar do menino no buraco.

No fundo do buraco estava ele ali. Acordou depois de um tempo e percebeu que estava machucado. Não conseguia me mexer. O que está acontecendo? Onde estou? Tudo parece um sonho! Não consigo sentir minhas pernas, mas ao mesmo tempo sento uma dor enorme! De onde estou, não vejo minha casa da fazenda. Minhas mãos estão escurecidas pela terra, eu estou tão sujo, minha roupa azul está cheia de farelos de terra e mato.

Aquele moleque me empurrou sem que eu visse? Quero mamãe! Está tudo ficando escuro... Quero me levantar, mas estou imóvel e preso aqui. Era tamanho o meu esforço que voltei a dormir de exaustão, de dor, de fraqueza... Que sede eu sinto! Cansaço. Apenas cansaço...

Parece que se passaram dias. Acordei com o olho pesado, como o de quem dorme por muito tempo. Daquele jeito que sinto depois de um resfriado forte. O que estou fazendo aqui? Levantei e tentei sair daquele buraco, mas ele era fundo. Não conseguia. Tentei muito e nada. Sentei com as costas escoradas na parede de terra. Agachado no chão, com as mãos segurando o rosto. Vi pelo clarão do sol que um menino dormia à minha frente. Não queria ir até ele. Na verdade queria dar as costas e tentar sair dali. Quanto esforço e nada. Dormi novamente.

Acordei e me levantei, aliás, tentei me levantar novamente. Percebi que meu tronco e cabeça se ergueram, mas as pernas pareciam coladas ao chão. Nessa hora vi que eu estava ligado ao corpo daquele menininho que dormia no buraco. O menininho era eu. Como num clarão, tudo veio à minha mente: Eu havia morrido.

Estranhamente me senti mais velho. Não parecia que eu era uma criança de 4 ou 5 anos. Saí do buraco com facilidade, mas estava muito confuso. Me assentei logo por perto. Não entendia os fatos, mas sabia que o negrinho me machucou e me deixou morrer ali.

Meus pais não me procuraram. Ninguém fez nada por mim! Comecei a chorar. Vi que várias borboletas e flores começaram a voar ao meu redor. Fui pego pelas mãos. Eram dois homens anjos que me levaram dali. Me levaram para um lugar e disseram que minhas pernas seriam tratadas. Só um pensamento permanecia em minha mente: o que aconteceu? O que eu fiz para aquele menino ter sido tão cruel comigo? Só pode ter sido ele que me fez tão mal.

Deram-me uma água com cheiro de flores para beber. Bebi e dormi. Uma certeza eu tinha, mesmo que sem uma explicação, sabia que algum dia reencontraria o negrinho e ele teria que me contar o que aconteceu e por qual razão me fez tão mal! Cansaço... Exaustão... Sono... Lembranças.

Acordei depois de um tempo numa cama muito aconchegante e me sentindo mais forte. Tinha sempre visitas que conversavam comigo e me mostravam o quanto há de bom na vida. Descobri que teria nova chance de viver na Terra. Assim, vivi e morri, como dizem os homens por diversas vezes e sempre sentia no coração que haviam me feito mal e precisava descobrir a razão. 

Nesta última vida recebida como dádiva para meu desenvolvimento, era um leitor muito desejoso de viajar pelas letras dos livros, sejam eles físicos ou virtuais. A leitura me completava um vazio que não sabia explicar também. Havia em mim uma sensação de sempre estar na companhia dos personagens das histórias que lia. Dormia e sonhava com as realidades das histórias que lia e isso era muito bom! Havia começado a ler sobre a história de um menino escravo, que numa brincadeira inocente viu o filho dos senhores de sua fazenda falecer e recebeu a culpa por esta morte. Em virtude disso, paralisou seu processo evolutivo e ficou preso entre as eras tentando por esforço próprio, compensar o acontecido.  Numa noite, quando lia esta história, tive um sonho muito real. 

Sonhei que o menino aparecia para mim e disse: inspirei a escrita deste livro que lê para que de alguma forma fosse dado a você a condição de clarear seus pensamentos e perceberes que não tive culpa na ocasião de sua morte naquele buraco no terreno da fazenda. Quando esta conversa iniciou vi uma cena como se eu estivesse de fora. Uma senhora conversava com um menino negro, que tinha os pés mirrados e lhe dizia: já é hora de você deixar que o menino da fazenda viva a vida dele. Não é pela sua presença sempre ao redor dele que as coisas serão modificadas no passado. O que podemos fazer para que tudo se resolva e você consiga se libertar da culpa e seguir seu processo evolutivo? O menino então respondeu para a senhora: gostaria de trazer à memória de alguém todas as circunstâncias de minha história, intuir para que esta pessoa escreva sobre ela e assim, chegará ao conhecimento do menino da fazenda os fatos reais. 


Continua........................




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