domingo, 15 de dezembro de 2013

A História do Menino V


A História do Menino V




Fernanda Machado Freitas


A senhora começou a me contar que as pessoas possuem muitas vivências e assim como ela, eu também tive outras vidas antes de nascer como Augusto, o Negrinho. Falou sobre termos tido muitos nomes, vivido em locais diferentes e ter tido muitas convivências. 


Ela começou a contar a historia de um jovem de cultura significativa, que amou muito uma moça que trabalhava cuidando de livros. Disse-me que a jovem era uma bibliotecária, numa cidade do norte europeu. Não entendi bem o que era norte europeu, mas alguma coisa estava diferente. Cada vez que a senhora falava, parecia que as imagens se formavam em minha cabeça e eu podia ver a terra de onde a jovem era. 

Neste momento, vi um rapaz caminhando de braços dados com a bibliotecária que era uma moça bonita e percebi que ele sentia muito amor por ela. Apesar do belo sentimento de amor que existia entre eles, o rapaz era apegado a posses, a vaidades e desejava muito ser parte de uma elite social. O grande afeto, que ele nutria pela jovem bibliotecária, não o impediu, porém, de se envolver com outra jovem que conheceu.


Uma jovem rica, de família tradicional, tinha atributos suficiente para fazer com que ele não hesitasse em deixar para trás toda felicidade e amor, que poderia viver com a jovem bibliotecária. Escolheu preencher seu coração com vaidades. Casou-se com a jovem rica sem pensar na dor e sofrimento, que a menina trabalhadora e esforçada teria. Não foi bom esposo. Não foi bom pai. Pensava apenas no que ganharia materialmente. 

Fiquei surpreso nesta hora. Vi nos olhos da jovem bibliotecária o sofrimento com a perda do amado e o mais surpreendente, vi neles o mesmo olhar da moça da fazenda, a mãe do menininho que morreu! Eram as duas, na essência a mesma mulher! Nada mais compreendi! A senhora pegando em minha mão, disse para ter calma, pois tudo me chegaria ao pensamento com mais exatidão, pouco a pouco. Disse ainda que nada é por acaso e que todas as historias se conectam.


Despediu-se e fiquei ali, acordado, pensando. Queria entender a razão de ver a mãe do menininho ali, como a jovem bibliotecária, com outras roupas e em outro lugar... Aquela mesma moça, que sempre teve um olhar carinhoso quando olhava para mim na cerca, que apesar de ter perdido o filho, rezava e pedia para eu estar junto do filho dela, sendo cuidado por Deus. Não encontrava respostas. 


Pensei tanto, que a exaustão me dominou e dormi novamente.
Quando estava dormindo, meu sono foi tumultuado. Via o rapaz branco, que trouxe tanto sofrimento para a jovem sonhadora e trabalhadora. No sonho vi que a jovem havia se casado com um homem bom, mas nunca esqueceu o amor que sentira pelo rapaz ganancioso. 

O marido dela, trabalhava guardando dinheiros e pertences de pessoas abastadas. Ela foi feliz ao seu lado. O amou de um modo diferente, mais amigo e paternal e sempre foi grata a Deus por ter lhe dado a companhia de um homem bom, excelente pai e que a amava verdadeiramente! Teve três filhos homens e honrou seu casamento.

Na mesma hora, eu já não estava mais ali, me via na beirada de um grande lago, agachado, vendo um homem suicidando. O homem sofria desesperadamente pela perda da mulher amada que o abandonou. Queria se matar para não ter que viver uma vida sem a amada e também para castigá-la. Ele tinha um amor enlouquecedor pela mulher que o abandonou. Sem forças para viver sem sua companhia e seu amor, cortou os pulsos com uma faca, cuja navalha estava especialmente afiada para facilitar seu intento.


Acordei com o peito apertado. Uma hora eu era de um jeito, em outra tinha outro corpo e via aquelas coisas acontecendo... O que me chamou atenção era a presença, sempre marcante, da mãe do menininho que caiu no buraco e morreu. Ela estava lá, hora como a jovem bibliotecária, hora como a mulher que abandonou o homem suicida... Lá estava ela. Lá eu estava, vendo tudo, mas ainda sem compreender. 

Senti vontade de me levantar. Afastei o lençol para o lado, vi minhas pernas e pés sem faixas. Abri um grande sorriso. Estiquei as pernas para fora da cama e me ergui. Percebi que era um homem adulto. Branco, média estatura, magro, pés compridos e finos. Usava uma roupa parecendo um avental que cobria minhas costas e minha frente até o meio da canela. 

Percebi que estava ligado a um cano fininho transparente, com um remédio que caia em minha veia. Uma agulha fininha estava fincada em meu braço. Tentei movimentar e ir até uma janela que estava próxima. Era possível arrastar o remédio que ficava preso sobre uma haste.

Cheguei à janela e vi um cenário tão bonito! Tive vontade de ir lá fora. Tinha tanta flor hortênsia na beirada dos caminhos... Precisava ir até lá! Nesta hora, um homem jovem chegou perto de mim e disse, de forma branda, que não poderia sair ainda. Precisava me recuperar, me fortalecer. 

Segurou o meu cotovelo esquerdo e me conduziu para a cama. Fiquei um pouco nervoso. Por que não me permitiam ir lá fora? Eu era prisioneiro? O que eles fizeram comigo? Não era mais o negrinho, tinha sonhos estranhos e agora esta! Não poderia sair... Alguma coisa estava muito errada! Fiquei zangado e quis brigar como o homem, mas na mesma hora, cai.

Fui para o chão como se fosse uma folha caindo de uma árvore. Não entendi o que aconteceu e tentei me erguer. Imediatamente percebi que minhas pernas sangravam e sangravam muito! Fui socorrido por mais outros dois homens vestidos de branco que me colocaram sobre a cama novamente. Deram-me água e injetaram outro remédio no líquido que caia em meu sangue. Dormi.

Acordei um tempo depois e estava mais recuperado. Tive permissão para sair e caminhar pelo jardim. Tive muito medo de me dirigir às outras pessoas de lá, mas aos poucos fui me acostumando a esta nova realidade. Ao novo corpo, a nova forma de ser, a calma daquele lugar. Passei a estudar, aprendi a escrever, tive acesso a acontecimentos passados e muita coisa se esclareceu para mim. Me vi por longo tempo, depois que descobri que o menino havia caído no buraco e morrido, procurando-o e ao encontrá-lo eu  seguia, sempre tentando ajudar, para compensar todo o mal que acontecera.  

Foram muitas histórias diferentes, o menino vivendo em outras realidades, mas algo me trazia para perto dele, sempre para perto dele e ali permanecia, invisível mas presente, tentado ajudá-lo. Vida após vida o menino manifestava algum problema nas pernas e eu tentava diminuir toda angústia e trauma que ele tivesse. 

Um dia em meus estudos, pude ver na tela de visões retrospectivas, o despertar do menino no buraco.

No fundo do buraco estava ele ali. Acordou depois de um tempo e percebeu que estava machucado. Não conseguia me mexer. O que está acontecendo? Onde estou? Tudo parece um sonho! Não consigo sentir minhas pernas, mas ao mesmo tempo sento uma dor enorme! De onde estou, não vejo minha casa da fazenda. Minhas mãos estão escurecidas pela terra, eu estou tão sujo, minha roupa azul está cheia de farelos de terra e mato.

Aquele moleque me empurrou sem que eu visse? Quero mamãe! Está tudo ficando escuro... Quero me levantar, mas estou imóvel e preso aqui. Era tamanho o meu esforço que voltei a dormir de exaustão, de dor, de fraqueza... Que sede eu sinto! Cansaço. Apenas cansaço...

Parece que se passaram dias. Acordei com o olho pesado, como o de quem dorme por muito tempo. Daquele jeito que sinto depois de um resfriado forte. O que estou fazendo aqui? Levantei e tentei sair daquele buraco, mas ele era fundo. Não conseguia. Tentei muito e nada. Sentei com as costas escoradas na parede de terra. Agachado no chão, com as mãos segurando o rosto. Vi pelo clarão do sol que um menino dormia à minha frente. Não queria ir até ele. Na verdade queria dar as costas e tentar sair dali. Quanto esforço e nada. Dormi novamente.

Acordei e me levantei, aliás, tentei me levantar novamente. Percebi que meu tronco e cabeça se ergueram, mas as pernas pareciam coladas ao chão. Nessa hora vi que eu estava ligado ao corpo daquele menininho que dormia no buraco. O menininho era eu. Como num clarão, tudo veio à minha mente: Eu havia morrido.

Estranhamente me senti mais velho. Não parecia que eu era uma criança de 4 ou 5 anos. Saí do buraco com facilidade, mas estava muito confuso. Me assentei logo por perto. Não entendia os fatos, mas sabia que o negrinho me machucou e me deixou morrer ali.

Meus pais não me procuraram. Ninguém fez nada por mim! Comecei a chorar. Vi que várias borboletas e flores começaram a voar ao meu redor. Fui pego pelas mãos. Eram dois homens anjos que me levaram dali. Me levaram para um lugar e disseram que minhas pernas seriam tratadas. Só um pensamento permanecia em minha mente: o que aconteceu? O que eu fiz para aquele menino ter sido tão cruel comigo? Só pode ter sido ele que me fez tão mal.

Deram-me uma água com cheiro de flores para beber. Bebi e dormi. Uma certeza eu tinha, mesmo que sem uma explicação, sabia que algum dia reencontraria o negrinho e ele teria que me contar o que aconteceu e por qual razão me fez tão mal! Cansaço... Exaustão... Sono... Lembranças.

Acordei depois de um tempo numa cama muito aconchegante e me sentindo mais forte. Tinha sempre visitas que conversavam comigo e me mostravam o quanto há de bom na vida. Descobri que teria nova chance de viver na Terra. Assim, vivi e morri, como dizem os homens por diversas vezes e sempre sentia no coração que haviam me feito mal e precisava descobrir a razão. 

Nesta última vida recebida como dádiva para meu desenvolvimento, era um leitor muito desejoso de viajar pelas letras dos livros, sejam eles físicos ou virtuais. A leitura me completava um vazio que não sabia explicar também. Havia em mim uma sensação de sempre estar na companhia dos personagens das histórias que lia. Dormia e sonhava com as realidades das histórias que lia e isso era muito bom! Havia começado a ler sobre a história de um menino escravo, que numa brincadeira inocente viu o filho dos senhores de sua fazenda falecer e recebeu a culpa por esta morte. Em virtude disso, paralisou seu processo evolutivo e ficou preso entre as eras tentando por esforço próprio, compensar o acontecido.  Numa noite, quando lia esta história, tive um sonho muito real. 

Sonhei que o menino aparecia para mim e disse: inspirei a escrita deste livro que lê para que de alguma forma fosse dado a você a condição de clarear seus pensamentos e perceberes que não tive culpa na ocasião de sua morte naquele buraco no terreno da fazenda. Quando esta conversa iniciou vi uma cena como se eu estivesse de fora. Uma senhora conversava com um menino negro, que tinha os pés mirrados e lhe dizia: já é hora de você deixar que o menino da fazenda viva a vida dele. Não é pela sua presença sempre ao redor dele que as coisas serão modificadas no passado. O que podemos fazer para que tudo se resolva e você consiga se libertar da culpa e seguir seu processo evolutivo? O menino então respondeu para a senhora: gostaria de trazer à memória de alguém todas as circunstâncias de minha história, intuir para que esta pessoa escreva sobre ela e assim, chegará ao conhecimento do menino da fazenda os fatos reais. 


Continua........................




A História do Menino IV


A História do Menino IV

Fernanda Machado Freitas 12/12/2013

Acordei e aquela música, que nós crianças cantávamos ao redor da cabana, ecoava na minha cabeça:


Fui cuidado, fui levado, tanto cisma quão melado.
Fui detido reprimido, tanto forte cão minguado.
Fui remido, destemido, tenho forte meu legado.
Tanta terra, tanta gente, no sol forte água quente.
Fui pro mundo, pé descalço, no canavial inchaço.
Pés no chão, sol na tez, braço forte pro freguês.

A gente cantava brincando de roda, passando os dedos pelo chão e rodando em passos harmônicos... Eu como sempre dava minhas gargalhadas. Apesar de não ter aberto os olhos ainda, aquela música cantava dentro de mim. Demorei a despertar completamente, mas quando acordei, vi que estava deitado numa daquelas coisas brancas que vi na casa da fazenda. Era fofo e macio. Limpo e fresco. Diferente do chão da cabana. 

Olhei ao meu redor e vi que estava sozinho, num lugar de parede como a casa. Era de cor azul. Do meu lado tinha uma mesinha e um jarro de água transparente, com o que viria a saber, que era um copo. Engraçado... Só conhecia as cuias de água e os jarros de barro. Aquilo parecia com as águas do riacho prendendo as próprias águas do riacho! Era tão bonito! Esbocei um sorriso e nesta hora entrou ali uma senhora.




Por mais que estivesse me sentindo vivo, eu me sentia fraco. Não senti nem vontade de levantar e sentar. A senhora veio e pegou em minha mão com um sorriso no rosto. Ela me perguntou se eu estava bem. Perguntei a ela se poderia beber água. Eu queria ver como ela derramaria aquela água para me dar.


Olhei a água caindo naquele copo transparente e quando ela o colocou em minha mão, eu o segurei com as duas e fiquei olhando dentro dele, vendo através da água o meu colo que estava coberto por um pano também branco. Achei tão interessante aquilo... Saboreei a água. Sorvi cada gotinha como se fosse algo precioso demais. Como era boa aquela água!

Percebi que tinha até me esquecido da senhora que estava ali ao meu lado. Abaixei a cabeça, me senti envergonhado e agradeci pela água gostosa. Ela, com aquela mesma forma atenciosa, disse que eu não precisava sentir culpa ou envergonha. Perguntei onde estava e ela disse que eu estava entre amigos. 

Achei estranho, já que nunca tive muitos amigos e nenhum deles de fora da cabana. A senhora, como se tivesse lido meus pensamentos, me disse que amigos são aqueles que cuidam de nós e nos querem bem, mesmo que não os vejamos com freqüência. Disse-me também que amigos são aqueles com quem nem convivemos ainda, mas que são capazes de nos aceitar e amar.

Aquelas palavras eram boas, mas eu não conseguia entender bem sobre elas. Tentei me mover e aí percebi que estava como que pregado à cama. Da cintura para baixo nem mesmo sentia o meu corpo. Ela colocou uma mão perto do meu ombro direito, já que ela estava sentada do lado direito de onde estava deitado e disse para eu ter paciência, pois estava sendo tratado e que se ajudasse em meu tratamento, logo estaria andando.




Vi que ela sabia da minha historia e queria reforçar com ela, o quanto fui vítima de um pai enraivecido e de um espírito ruim, que ficou assoprando no ouvido de um pai que estava amargurado pela perda de seu filhinho, que se vingasse de mim! Nesta hora ela passou a mão em minha testa e me disse: 


-Augusto. Não há mais tempo para você sentir pena de você mesmo! Deixe ir os sentimentos que o mantém no mesmo estado adoentado e de dores. Busque sentimentos de fé e tolerância com aqueles que o fizeram sofrer... Ela pousou nesta hora as duas mãos sobre minha fronte e me senti calmo, fui me acomodando novamente e voltei a dormir.

Acordei mais sereno e com mais vigor. A mesma senhora estava ali como se esperasse meu despertamento. Pegou em minhas mãos e disse: E aí, Augusto? Como você está hoje? Disse que me sentia bem. Tentei me mexer e percebi que já sentia minhas pernas. Não sei dizer se sentia minhas pernas mesmo... A sensação era de ter algo abaixo do meu umbigo, pois fiz força para me assentar e senti o peso do restante do meu corpo. 

Quis levantar o pano e a senhora me perguntou se era o que realmente eu queria fazer. Eu disse que sim e me deparei com algo ruim. Minhas pernas estavam enfaixadas. Mas também percebi algo que me fez muito feliz: Tinha faixas nos meus pés, o que significava que meus pés não estavam esmagados... Abri um grande sorriso e nesta mesma hora, olhei e percebi que eu não era um negro. Minha barriga tinha pele branca. Assustei-me demais! A senhora me viu todo confuso e me disse: Não se preocupe Augusto. Seu corpo na terra não é sua morada eterna. 

Não entendi nada. A aflição e a angustia vieram novamente. Me senti muito fraco! Será que eu estava ficando meio maluco? Será que eu estava sonhando? Eu sempre fui o Negrinho... Como pode ser isto de ver minha barriga, meus braços, tudo branco? E meu rosto? Estava negro? Nesta hora, a senhora deu uma sonora gargalhada. Ela realmente escutava meus pensamentos... Virou-se e de uma gavetinha que ficava na mesa onde a água estava, tirou uma coisa redonda com um cabo. Colocou na frente do meu rosto e aí eu me vi. Branco. Branco. Branco. Branco mesmo!

Apesar de saber que aquele não era eu, ao olhar em meus olhos eu sabia que era eu mesmo! Confuso, não é? A partir de então, a senhora começou a me explicar muitas coisas. Explicava até o nome da cama, do copo, do quarto... Me explicou também sobre o Augusto desencarnado...

E foi assim


 

E foi assim 

Fernanda Machado Freitas

Estava sentada no chão. Meu colega estava na minha frente. Ao nosso lado tinha uma pessoa adulta, um mestre, que nos orientava. Eu estava com os braços enlaçados na perna esquerda, apoiando meu queixo sobre o joelho. Mantinha a outra perna dobrada no chão. Ficava atenta, olhando a boca do mestre que falava pausadamente. Não queria perder nenhuma palavra do que ele dizia! Meu colega mantinha as pernas cruzadas, com os cotovelos apoiados sobre a coxa, as mãozinhas cruzadas uma a outra, apoiando o rosto. Olhava atentamente para uma rede que estava no chão. Olhava como se aquilo fosse algo completamente desafiador. Eu nem entendia por qual razão estava com a atenção tão fixada naquela rede.

O mestre apontou para a rede, que estava aberta no chão. Era feita de uma linha branca, de média espessura, com aproximadamente cinqüenta centímetros, num formato de quadrado. A rede às vezes parecia brilhar em alguns pontos da linha, como se tivesse pequeninos cristais. Ele disse: 

-Vejam. Olhem bem. 

Eu olhava, mas só via a rede. Parecida com aqueles adereços de cabelo que as mulheres usam. Cada pequeno quadrado, formado pelas conexões que os nós demarcavam, era de aproximadamente cinco centímetros, ou seja, maior do que os de uma redinha de cabelo. O mestre voltou a dizer:

-Olhe bem. Veja. Veja mais que a linha e a rede!

Ele demonstrou, por seu semblante, que eu precisava fazer o que ele dizia. Eu achei que estava olhando, mas resolvi mudar de posição. Ajoelhei e coloquei as mãos no chão, como se fosse um gatinho, de maneira que olhei a rede por cima. Naquele momento, não mais a vi. Olhei por meio dela e vi para alem. Era diferente agora... Ela não mais parecia estar colocada sobre o chão. Era como se por ela eu visse um canal que me mostrava o universo. Naquele momento viajei pelo infinito, permeado pelas luzes de estrelas, constelações, sistemas. Perdi-me na imensidão, num sentimento de paz profunda! Um misto de alegria, realização e algo como um estado de letargia, serenidade... Parecia que simplesmente estava pairando sobre o nada.

Ouvia aquela voz que dizia:

-Compreenda. Tudo está conectado! Existem pontos que garantem a inter-relação entre o todo. Perceba: Há um infinito de possibilidades e qualquer ação sobre um ponto, impactará em toda a rede! Não é possível isolar os fatos, não é possível isolar os tempos. Quando se vê para além do que é material, a compreensão e percepção se expandem. Somos talhados para perceber o que é duro, concreto e perdemos nisto a possibilidade de ver para além. Não é desprezar o que está manifesto, mas é considerar outras possibilidades de movimento, de percepção e dimensão.


-Não há como analisar determinados fatos isoladamente. Não somos seres atemporais. Vivemos épocas e o saber construído jamais é desintegrado. Ele se consolida e sobre seus elementos fundantes é estabelecida uma nova ordem direcionadora das escolhas.

O mestre ainda perguntou:

-Percebe a serenidade alcançada quando se estabelece a conexão com o todo? Educa-se o olhar para esta forma de conceber a vida. As possibilidades são expandidas.

Voltei a posição anterior e olhei aquilo que antes era uma redinha colocada no chão, como algo mais detentor de beleza. Enxerguei a redinha como algo mais valioso... Não sei explicar! Quando voltei a minha posição inicial, eu via as mesmas linhas entrecruzadas, que apesar de terem assumido outro significado para mim, eram elementos da mesma rede. O que passou a ser diferente, é que minha mudança de posição, a perspectiva de olhar por cima, de observar o todo ao mesmo tempo, me permitiu alcançar uma dimensão que ia além do assoalho onde a rede ela estava colocada.

Voltei o olhar para o mestre e ele já não estava lá. Meu colega se manteve impassível e tudo aquilo parecia ter acontecido somente comigo, num lapso de tempo que não sei expressar. Significou cinco minutos ou vinte? Uma coisa eu tinha certeza, não adiantaria pensar que deteria poder sobre o conhecimento da vida simplesmente por querer tê-lo. Obter este conhecimento se dá a medida em que há humildade para saber que não somos nós que determinamos tudo. Não é nossa lógica que determina o que virá a acontecer.

Nada no universo é em vão, nada no universo e imutável. A escolha do olhar determina o que será observado. A maneira como algo é observado, determina o detalhamento de outras percepções. Numa escala infinita, cada escolha impacta em outra, que por sua vez, não pode ser desconsiderada, apesar de não ser reconhecida. A escolha, a ação e a não ação estão ali. Tudo está conectado. A ação sobre um nó provoca mudança em todo o restante... E foi assim, mas não eram crianças que estavam sentadas ali.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A História do Menino III

A História do Menino III

Fernanda Machado Freitas  10/12/2013

Depois de tudo aquilo que aconteceu, percebi que precisaria fazer alguma coisa, além de ficar me escondendo e tendo medo de viver. É engraçado como os tempos passam por nós rapidamente, quando já não temos aquele corpo de carne e osso. Passa rápido demais! Sempre lembrava o meu corpo inerte no chão, naquela poça de sangue seco. Ai, que angústia eu sentia! Olhei para minhas pernas na mesma hora e fiquei aliviado em ver meus pés.

Saí caminhando e perto dali vi uma grande vila. Tinha fumaça, o chão não era de barro e tinha muitas casas como as dos senhores. Fiquei escutando o que as pessoas falavam e soube que o nome daquela vila era cidade. Vi umas coisas estranhas que levavam as pessoas, de um lugar para outro, como se fossem cavalos. Mas estas coisas não exigiam que déssemos água para eles ou os escovássemos como era feito com os cavalos. Aquela coisa dava muito menos trabalho que os cavalos! Descobri então, que o nome era automóvel.

Via poucas pessoas negras pela cidade. Muitas e muitas casas perto umas das outras. E muito movimento... Muito movimento mesmo! Não tinha um lugar onde olhasse que não visse gente andando! Logo o dia caiu e a noite chegou. Senti frio e desamparo. Sentei num banco gelado e duro que ficava numa ilha de fazenda. Descobri depois que esta ilha de fazenda se chamava praça. Fiquei ali sozinho e pensativo. À medida que o tumultuo da cidade diminuiu pude observar outros espíritos por ali também.

Pela primeira vez senti falta de minha família. Lembrei de minha mãe e chorei. Encolhi as pernas no banco da praça, enlacei-a com meus braços e chorei de soluçar. O que seria da minha vida? O que seria dos meus dias? O que iria fazer? Tudo era sem sentido algum! Nem a bruxa para eu ver as conversas, nem a fazenda... Tudo tão diferente!

Lembrei da reza que a moça na fazenda fez e tentei falar com o pai do céu. Se ele era o pai do céu, que estava sobre a terra, ele teria poder demais! Poderia me ajudar! Ele fazia chover e nascer o sol todos os dias. Ele dava o alimento de nossas vidas e nos garantia o respirar. Do céu vinha tudo. Viria dele alguma resposta para minha aflição?

Encostei a testa em meu joelho e continuei chorando... Levantei o rosto, limpei as lagrimas e pensei: - Puxa vida, Augusto, será que você só sabe chorar? Lembrei de minha mãe novamente. Ela contava a historia de um menino que conheceu quando ainda era criança, que se chamava Augusto. Ela foi pequenina para a casa dele, para poder cuidar das brincadeiras com ele. Ela brincava e trabalhava brincando com este menininho. Dizia que ele tinha os cabelos feitos de raios de sol e os olhos feitos de pedaço de céu. Ela amava aquela criancinha e por isto me deu o nome de Augusto.

Na cabana riram dela quando escolheu este nome para mim, mas ela, quando nasci, me abraçou naquele pano onde enrolavam os nenéns, deu um sorriso grande e disse: - Eu já tive um Augusto no colo e o vi crescer. Quero ter outro Augusto no colo e que ele me veja envelhecer. Não deu certo o que minha mãe queria... Não a vi envelhecer...

Nesta hora, minha mãe apareceu na minha frente. Olhei direito e percebi que não era ela, mas eu sentia uma coisa boa como se fosse realmente a minha mãe. Era uma mulher mais rechonchuda do que ela, quando a vi pela última vez, mas que tinha aquele mesmo sorriso branco e grande. Ela estendeu as mãos para mim e disse para ir com ela. Fui. Não tinha mesmo para onde ir.

Ela foi conversando comigo. Disse que eu já estava preparado para aceitar a minha morte, que na verdade não era morte nada, mas uma mudança de morada. Precisaria aceitar que deixei aquele corpo triturado pela dor. Eu disse a ela que não estava me importando com o que aconteceu com meus pés. O que importava é que eu andava e corria daquele jeito que estava ali. Aí veio uma grande surpresa!

Me mostrou perto de uma árvore daquela praça, que meu corpo ainda jazia ali... Como se fosse o mesmo dia do esmagamento que sofri! Congelei meus passos, fiquei estático... Percebi que onde era aquela praça, no passado, era o lugar do moedor e da grande arvore, onde sob suas sombras, fui jogado sangrando. Ali estava a mesma árvore que me acolheu e deu energia durante meu longo sono.

Aquela cidade se formou aos arredores da grande casa da fazenda. Estava eu ali novamente, no mesmo lugar... Ela pegou em minhas mãos, sentou-se comigo na grama e disse que eu precisaria aceitar tudo o que aconteceu e ousar ter fé, para seguir meu caminho, para um lugar diferente daquele onde eu sempre estava.

Falou sobre uma morada no céu, onde minhas dores seriam tratadas, mas precisaria aceitar ser acolhido e tratado. Dependia de mim somente. Meu coração se abriu e percebi que não tinha minhas pernas e meus pés. Olhei para baixo e desesperei! Não poderia mais correr! Ela me abraçou ternamente e disse: Confia! O Pai do Céu cuida de você! Vi que muitas pessoas brilhantes estavam ao meu redor. Foi a última coisa que vi. Adormeci imediatamente nos braços daquela mulher. Foi um sono repentino e profundo.




Envelhecimento

Envelhecimento



Fernanda Machado Freitas  04/12/2013



Falar sobre envelhecimento com qualidade de vida é um grande desafio! Não quero utilizar o jargão “grande desafio”, que pode apenas indicar a sutileza ou a relevância de um tema que será abordado. Esta temática é complexa, já que os dois aspectos que a compõem são conceitos de grande profundidade e que assumem papel de destaque em muitas discussões ultimamente. 


Meu desejo aqui é gerar provocação! Isto mesmo: Gerar reflexão!

Envelhecimento como processo: Consideramos o envelhecer como processo. Envelhecemos a cada instante, portanto, o conceito de envelhecimento não está longe de nós. É presente em nossas vidas e, portanto, natural. Quem quer viver, tem que aceitar o envelhecer. 

Óbvio? Nem sempre! O culto a beleza, à jovialidade, aos modelos que são pouco a pouco assimilados pela sociedade por meio de uma série de ações... Temos uma sociedade centrada numa cultura do descartável. Os produtos são desenvolvidos já com data de serem descartados, para se tornarem obsoletos... a chamada obsolescência produtiva. 

São produzidos para não durar, senão, como serão substituídos, não é? Esta é a máquina do consumo! Falamos de vida útil! Será que um ser humano tem vida útil ou idade produtiva? 

Na sociedade do descartável, tudo é rápido e de curta durabilidade. Tendemos a ter até relacionamentos descartáveis! Tudo se torna passageiro! Precisamos refletir sobre esta situação, afinal a pessoa idosa não pode ser descartada por ter se tornado "obsoleta". Será que um ser humano repleto de vivências fica obsoleto? A obsolescência é um conceito adequado para tratar de gente?



Já pensaram que existem práticas de “entulhar” o idoso em áreas que poderíamos considerar de descarte? O que estaria por trás dos chamados “asilos”, que há pouco tempo não contavam com regulamentação específica? O que é mais triste? O abandono familiar.


Pensar em envelhecimento como processo, nos mostra o quanto somos escritores de nossa própria história. Hoje, somos o acumular de todas as nossas escolhas do passado. Nosso futuro é o acumular de tais escolhas e reconhecer que o processo é próprio da vida, só dá a tranqüilidade de que não é errado ser idoso! O envelhecer é o acumular de vivencias! O que precisamos pensar é sobre as vivencias que tentamos acumular e guardar. Positivas ou negativas? Construtivas?

As rugas virão, a energia poderá reduzir, o processo metabólico pode ficar mais lento, mas a essência de valores cultivados é a grande riqueza! Alguns podem pensar que esta é uma visão romântica da velhice, mas seja como for que nomearem, nesta maneira de perceber a realidade, o que importa, conforme minha concepção, é que viver é envelhecer! Cuidemos então do nosso dia a dia.



Se por um lado temos um culto ao idoso ativo, viajante, dançarino, esportista, de pele “esticadinha” e com formas de um adolescente, precisamos refletir se esta proposta está vinculada realmente a uma qualidade de vida, ou simplesmente é mais uma forma de massificação e estímulo ao consumo, numa sociedade que precisa atuar junto a mercado que muito cresce em todo o mundo.


Um ponto que sinalizo e reforço é a questão de termos escolhas hoje, que impactarão o futuro. O envelhecimento com qualidade de vida é uma reflexão de hoje para qualquer jovem! Os que já caminham para a chamada terceira idade são os que normalmente mais refutam a ideia de termos o conceito de envelhecimento como tema a ser trabalhado por jovens. Por qual razão? Pode ser que exatamente pela falta desta visão de processo.



O jovem hoje precisa refletir e discutir sobre seu direito de envelhecer. Pesquisas mostram, por exemplo, que quanto maior o nível de escolaridade dos idosos, melhor é sua qualidade de vida! O que precisa ser feito? Pensar em universidades de terceira idade? Sim. Mas também é preciso garantir o direito à educação hoje. Este jovem que percebe que envelhecimento é a cada dia, deve lutar para ter seus direitos garantidos e assim, de alguma forma, cuidar do envelhecimento.


Será que ao perceber-se "envelhecendo" terá postura diferente diante do envelhecido (leia idoso) ?

O assunto se estenderia muito em ponderações, mas acredito que já deixei alguns pontos para reflexão...

A Guerreira II

A Guerreira II


Fernanda Machado Freitas   29/11/2013

Os pardos já haviam aparecido antes, mas sempre recuavam diante do enfrentamento com nossos homens. Nunca chegaram a subir a colina e o fato de estarem saqueando as aldeias das proximidades, foi considerado uma grande ousadia e perigo também. Agora não somente saqueavam como destruíam pouco a pouco colocando fogo e destruindo toda plantação.


Desceram nossos guerreiros, como sempre, a energia que emanava de seus corpos era provida do sentimento de vitoria já determinada! Passaram-se dias e vimos um deles subir ofegante, correndo e irado. Muito contrariado, pediu que os homens fossem convocados para conversar e definir uma solução que era urgente. Não quisera bater o sinete, pois em sua cabeça, imaginava qual não seria a decepção e pavor que assolaria a todos, caso pela primeira vez subisse uma derrota.

Ele contou aos anciãos, em um misto de ira e de comoção, que todos os outros homens foram mortos ou se tornaram escravos. Ele falava grosso e de forma um tanto quanto descontrolada. Não poderiam permitir isto! Era necessário vingar o sangue do nosso sangue! Era preciso secar aquelas almas podres , que invadiam nossa terra e sem a menor piedade dilaceravam as criancinhas na frente de suas mães e pais. Na sede de mostrar poder e monstruosidade violentavam as anciãs na frente de seus familiares. Queriam ser vistos como capazes de tudo e assim provocar o medo! 

Depois de longa conversa que durou três tardes, optaram por enviar os mais valentes e vitoriosos homens de nossa aldeia para dizimar definitivamente o mal que assolou nosso povo e nos tirou vidas preciosas. Os homens que desceram, foram orientados a voltarem em quatro dias, mesmo que tivessem matado todos, deveriam permanecer no pé da colina, impedindo que algum ataque inesperado acontecesse. Sequer era considerado que não voltassem...

O quinto dia chegou, o sétimo o nono e nada aconteceu. Um pavor repentino era percebido no rosto de todos. Nunca houvera acontecido nada semelhante entre nós. Nunca havíamos perdido mais de dois homens de uma vez só, e desta vez foram quarenta e oito homens. Para ser sincera, nunca pensei que poderia acontecer algo assim. 

Choro e angustia começaram a estarem presentes nas casas. As mulheres e crianças que depositaram todas as suas esperanças e confiança nos guerreiros sofriam pela perda desta segurança e também choravam, cheias de dor, a perda dos entes amados. O que deveria ser feito? 

Os anciãos novamente se reuniram, prepararam alguns jovens e os orientaram a descer, se esquivando de qualquer confronto e assim observar o que havia nas aldeias do pé da colina. Haveria alguma monstruosidade com poderes ate então desconhecidos vindo para a aldeia?

Os jovens retornaram e informaram que tudo estava acontecendo com naturalidade nas aldeias do pé da colina. Estavam pouco a pouco se reconstruindo, tentando se reorganizar e não havia a presença dos torpes que vinham para tirar a paz. Descansamos mas os guerreiros não deixaram de estar atentos. Para nossa surpresa, um dia ao entardecer, vimos que um amontoado de flechas escureceu o céu na direção da aldeia. Era horário das reuniões e muitos dos homens foram feridos. Corríamos para receber aqueles que foram atingidos. Alguns morreram, mas com as espadas em mãos. Os demais se lançaram sobre os flecheiros e os exterminaram.Tivemos ainda mais perdas...

Homens maduros e dos mais valentes tinham sido perdidos naqueles combates sutis que andavam acontecendo. Não sabíamos nós, que a estratégia do inimigo era esta. Promover pequenas investidas e recuar. A cada recuo garantiam que a marca de pequenas perdas ficassem. Assim, estávamos sendo enfraquecidos.

Passaram-se mais alguns meses e outra leva de pequenos embates aconteceram. Neste meio tempo, nossos homens começaram a construção de um muro de pedras, que nos seria por proteção. Foi uma construção rápida que envolveu toda a gente, na busca e carregamento das pedras. As mulheres e crianças trabalharam arduamente e mesmo com a grande quantidade de atividades de corpo e mente, que os homens deveriam praticar para se aprimorarem, eles é que ajustavam as pedras sobre as pedras, contando com mistura de losna, que ficavam grudadas das pedras do riacho, misturada com barro, vindo do terrenos de plantas rasteiras.

Sequer terminamos o muro e vimos muitos pontos de fumaça abaixo de nós, o que apontava para novos ataques nas aldeias inferiores. Os homens se reuniram e a estratégia a ser utilizada foi outra. Não desceriam para ajudar aos mais próximos. O número reduzido de homens valentes e combativos não deveria ser colocado em risco. Havia agora uma necessidade que desconhecíamos e grande mal estar se estabeleceu. Os homens se sentiram violentados. Incapazes de fazer algo sem expor suas famílias, mas mesmo assim, se sentiam fracos e derrotados. Entre os homens muitos jovens outra mudança também aconteceu. Precisavam estar aptos ao combate e já passaram a receber orientação para luta.

Em certa manhã, acordei com os gritos de uma mulher, coisa que nunca havia visto ou ouvido em toda minha vida! Já tinha dezenove anos nesta época.

A Guerreira I

A Guerreira I

Fernanda Machado Freitas   27/11/2013

Estava eu ali na terra plana da colina. O vento era frio. Entrava pelas beiradas da roupa mesmo que estivesse com a minha pele protegida pelas peles de animais. Olhei para aldeia. O que aconteceu com o meu povo? O que seria de nós? Preferiríamos ver nossos filhos sob a espada a reagir e quebrar costumes? Lágrimas vinham em meus olhos ao ver a neve que cobria a terra, ao ver no fundo da aldeia as crianças que brincavam ainda sem saber o que acontecia. Meus olhos pequenos, rasos e esticados, não conseguiam conter as lágrimas que aumentavam ao ver as mulheres, muitas mulheres assentadas e tecendo, outras mexendo na terra e outras com o olhar perdido no horizonte como se pudessem ver seus queridos voltando com o soprar do vento.

Estive ali absorta em meus pensamentos e não percebi o guerreiro que chegou com instrumento s em punho. Um caniço que era usado em combate e que como uma arte passada de pai para filho, era utilizado como defesa, ataque, proteção e extensão do corpo.Ele olhou em meus olhos e sem palavras nosso pacto foi selado. Eu escolhera isto. Sabia as consequências e estava desafiando toda a ordem. Naquele breve instante, todo o passado de crise retornou em minha mente.

Somos moradores que por muito tempo formos nômades. Em nossa terra, os grupos são consolidados e formam suas aldeias. Alguns escolhem ser nômades e outros, depois que se encontram como parte de um território, fixam suas raízes e estabelecem ali as suas moradas.

Nós encontramos aquele pequeno platô, com terra boa, um pequeno rio que descia pela montanha de pedra, mas se deitava pelo solo em pequenas cascatas. Muito verde ao redor e flores rasteiras em abundância. Um lugar desejável, conquistado em paz. Meus antepassados foram para lá numa época de grande queda de temperatura e devido aos vários níveis do rio devido ao relevo de pequenos degraus, suas águas permaneciam liquidas. Foram sustento para meu povo que até então era nômade. Fomos ficando ali e pouco a pouco estabelecemos nosso lugar.

Muitas gerações cresceram, alguns de nós íamos outros voltavam. As famílias cresciam. Os homens detinham grande sabedoria e eram ouvidos e consultados. Reuniam-se em frente à aldeia e conversavam. As mulheres não tinham permissão para conversar com os homens quando eles estavam reunidos.

As mulheres nasceram com a nobreza de garantir o futuro da prole, precisavam parir bem, cuidar e garantir que os meninos nascidos na aldeia descem bons guerreiros. As meninas por sua vez deveriam aprender com suas mães, a serem simples e silenciosas como os pequenos pássaros que sequer são percebidos, mas sobrevoam a imensidão.

Os homens nasceram com a inteligência, a força e a astúcia dos ursos que apesar de enormes, conseguem ter tonicidade e controle para pegar o mel em uma colmeia sem atiçar as abelhas. Sem serem percebidos, atacam e destroem o inimigo sem que ele tenha como correr. Nosso povo valorizava o silencio e a concentração.

Eu era um pouco diferente... Observava tudo ao meu redor. Queria ser como o passarinho, mas também queria ser como o rio que corria e descia pela montanha. O rio era sempre renovado. Um rio que em alguns dias se mostrava volumoso e forte, apesar de ser um riacho tranquilo e atrativo.

Os meninos, bem cedo iniciavam o conhecimento para o domínio do corpo e da força da mente. Eram treinados para uso da pedra, caniço e aprendiam a lutar corpo a corpo. Estimulavam os músculos e o pensamento. 

Desde pequena, gostava de ver toda solenidade e encanto das cerimônias de poder. Era assim que eu as entendia. Os meninos logo cedo eram convidados a participar das reuniões de conversa. Lá, de acordo com o comportamento deles, os anciãos com toda sua perspicácia, identificava os atributos de alma que traziam e iniciavam a sua formação. Ficava curiosa e queria estar lá. 
Nem ouvir o que era falado eu podia Às meninas, quando criança, era permitido que brincassem por perto do espaço das reuniões. Na verdade elas sequer eram vistas, pois significado algum elas tinham. Eu, sempre os deixava achar que estava entretida com a brincadeira e tentava ouvir sobre o que falavam.

À medida que cresci perdi o interesse em espreitar as reuniões. O volume de atividades aumentou e quando chegava a tarde, desejava muito estar recolhida e descansar. Algumas vezes a aldeia era atacada. Outras tribos, principalmente em tempos de neve contínua desejavam o espaço próximo ao riacho. Guerreiros de outras tribos desejavam também tomar posse de nossas mulheres devido ao grande apreço que todos demonstravam pela sabedoria e trabalho árduo de que eram capazes. 

Nossos homens eram valorizados e valentes. Podiam se dedicar ao aperfeiçoamento do corpo e mente, pois tudo o mais garantíamos que tivessem. Era uma troca justa. Eles nos protegiam e nós garantíamos toda condição de se prepararem para nos defender. Nossas mães e tias nos ensinavam a tratá-los com muito respeito e amor. A jamais contrariá-los. Crescíamos gratas e reconhecendo que se estávamos vivas e ali, devíamos tudo aos nossos guerreiros.

Voltei para o tempo do agora. Aquele breve silêncio me fez repensar a nossa historia ali. Dei um suspiro profundo... Peguei o caniço e minhas mãos começaram a tremer. Tinha assumido uma responsabilidade que eu mesma lutei para ter. Era hora de começar a honrar a transgressão de costumes que estava propondo. Outros homens que treinavam, longe de onde eu estava, me olharam e percebia neles o desprezo. O mestre também passaria por repudio, mas de certa forma acreditava que poderia ser útil o meu treinamento. Outros aceitaram minha proposta na certeza de que deveriam permitir minha ousadia, para que ao ser destruída, servisse de exemplo para outras mulheres.

Um bando vindo de terras longínquas começou a saquear as aldeias ao nosso arredor. Alguns habitantes vieram até nós e pediram ajuda. Nossos guerreiros prontamente foram para auxiliar. Estavam motivados pelo sentimento de proteção e preservação, mas também pela certeza de vitoria que sempre alcançavam. 

Tudo começou durante uma madrugada. Ouvimos o sinete tocando insistentemente. Era a convocação para os homens se reunirem no espaço ao redor do templo de adoração.Esta convocação acontecia somente quando havia risco iminente de invasão. Imediatamente as mães tentaram esconder os filhos, e ao mesmo tempo ficam meio que atordoadas, como insetos a beira da luz do fogo. Não sabiam o que fazer. Arrastando seus pés calçados com meias, iam e vinham, colocando no fogo a água pra fazer chá.

Preocupavam se logo com a comida, que deveria estar disponível para os guerreiros, caso precisassem ir para a luta. O tempo da reunião demorou e ao final dela, um terço de nossos homens ficaram designados para descer a colina e bloquear a subida, que os pardos pretendiam fazer. Pardos eram homens de pele morena que vinham de outras terras mais quentes. Eles tinham costumes diferentes, eram barulhentos, gananciosos, hostis e sujos.





História do Menino II


História do Menino II

Fernanda Machado Freitas 09/12/2013


Estava de novo só. De repente, o tempo parece que parou! Um vento fraquinho soprou e até vi uma poeirinha levantar. Quando olhei para o lado, vi um homem, ali, sentado, olhando e sorrindo para mim. Ele era negro como eu, mas usava uma roupa branca e tinha um rosto sereno, apesar das rugas da velhice. Ele me perguntou: 


- O que há garoto? Por qual razão você sente tanta tristeza? 

Claro que contei pra ele. Tudinho, tudinho... Disse que gostaria de me vingar daquele que me fez tão mal, mas que por covardia, o desejo de vingar passou. Havia dormido muito e quando acordei tudo estava diferente. Não reencontrei aquelas pessoas de antes. O homem me disse:

-Olhe para frente...

Olhei e não vi nada. Voltei meus olhos para o homem e que me disse novamente:

-Olhe! Apenas olhe! Se acalme e veja o que pode ser visto...

Nesta hora, abriu-se em minha frente uma imagem, como se eu estivesse novamente lá na fazenda. Eu vi a casa. Era noitinha... O homem pegou em minha mão e me levou lá para dentro dela. Nunca imaginei que havia um lugar tão lindo! Era diferente. Havia moveis de uma madeira meio vermelha. Levou-me onde os brancos dormiam e fiquei maravilhado! Tinha vontade de pular naquela coisa fofa, branca onde eles dormiam. Vi uma pequena menina dormindo ali... Quando eu pensei em pular, imaginei que poderia acordá-la e aí sim, poderiam me surrar muito!

Na mesma hora pensei que isto tudo esta estranho demais! O homem pensou e eu ouvi o pensamento dele... Franzi minha testa não entendendo o que estava acontecendo e ele me disse que estávamos visitando o passado, para que eu compreendesse algumas coisas. Olhou para um canto do quarto o que dirigiu meu olhar para o mesmo lugar. Vi aquela moça que me olhava com carinho quando estava na varanda, sempre que eu me enganchava na cerca.

Ela estava ali no canto. De olhos fechados, ajoelhada com uma corrente fina de bolinhas nas mãos. Chorava sem fazer nenhum barulho. Eu via as lágrimas correrem em seu rosto. Na frente dela estavam acessas duas velas sobre uma mesinha, onde ela se escorava. Tinha também duas imagens, de uma mulher e de um homem, que parecia um guerreiro. O velho homem olhou e me fez pensar que deveria aproximar dela e estar atento. Imediatamente fiz o que ele sugeriu. Para minha surpresa, passei a ouvir a voz daquela mulher também.



Sem que ela mexesse seus lábios eu ouvia o que pensava enquanto chorava. Lembrava-se de seu filho, e ai percebi que ela era a mãe do menininho que caiu no buraco, quando corria atrás de mim. Como estava sofrendo! Ela também se lembrou de mim. Sim, de mim! E então chorou mais e mais... 


Ela dizia em seu pensamento que gostaria de pedir ao “pai do céu” e a “rainha mãe de Jesus”, que cuidasse de nós dois e nos pusesse em seu colo. Pedia para esta rainha nos amar assim como amava o menino Jesus... Não entendi bem o que era essa rainha e esse menino Jesus, mas sentia que eram bons e que o que a mulher queria era que os deuses nos protegessem. Sentia que a mãe sofria pela perda do filho e sofria pelo que tinha acontecido comigo. Era uma dor profunda... 

Senti-me triste por ver aquela moça, por quem sempre tive um carinho, sofrendo, mas me senti agradecido por se lembrar de mim com amor e por pedir ao “pai do céu” para me colocar no colo dele também... E o mais lindo era que ela pedia para me colocar no colo dele junto com o filhinho dela. Para ela eu não era um bicho ou um menino mal... Ela sabia que eu não matei o menino! Olhei para o homem e minhas lágrimas escorreram. Escorreram em abundancia. Ela sabia que eu não era um gênio do mal! Senti a dor que aquela mulher sentia e comecei a chorar muito... Ela perdeu o filho e por alguma razão se sentia muito triste por eu ter morrido... Em sua reza ela dizia para que eu encontrasse paz e pedia perdão pelo que o seu marido havia feito... 

Imediatamente fui transportado para a cozinha. Estava frente a frente com o homem que me arrastou e esmagou meus pés e perna. Como ele estava diferente! Envelhecido, muito gordo, com o rosto rosado demais e totalmente bêbado. Havia tanta angústia, tanto sofrimento em seus pensamentos! Quando cheguei perto dele, vi que ele sentiu um arrepio. Ouvi também o seu pensamento. Ele relembrava momentos que passou com seu filho antes de vê-lo morto no fundo do buraco. Lembrava da sua aflição tentando tira-lo de lá. Lembrava exatamente da cor arroxeada do menino... Na mesma hora ele se lembrava dos meus gritos de dor...



Cada vez que ele ouvia aqueles meus gritos e pensava em mim, enchia um pequeno copo de bebida e engolia vorazmente. Era como se a bebida apagasse o pensamento e a voz que o atormentava. Vi, naquele instante, que sentado perto dele estava aquele mesmo homem que andou ao meu lado enquanto era arrastado pela terra. O homem estava do mesmo jeito. Nada havia mudado, a não ser sua aparência que era ainda mais desleixada e suja. Neste momento foi que percebi que ele era um espírito também.


Ele ria e falava no ouvido do homem que era o pai do menino morto:
-Veja o que você fez! Trouxe maldição sobre a sua casa! Desonrou seu pai e sua mãe. Matou uma criança da mesma maneira que ela matou seu filho. És tão maldito quanto aquele negrinho infernal. És pior! Ele era uma criança e você, um homem adulto e branco, que maltratou, matou e se vingou! Não merece estar vivo!

Quando dizia isto no ouvido do pai, instigava nele o desejo de se matar. Ele sentia que não merecia viver e ver sua pequena filha crescer. E se a maldição do assassinato do Negrinho se voltasse contra sua família? Pegou uma grande faca e ia cortar os pulsos. Fiquei aflito! Queria impedir! A jovem mulher sofreria ainda mais... 

Naquele momento, percebi que sentia mais que carinho e gratidão por aquela mulher. Eu sentia um grande amor e queria protegê-la! Pedi socorro ao homem que me levou até aquela casa. Na mesma hora, ele me fez sinal para ficar calmo. Sinalizou para que olhasse ao meu redor, e então vi que chegaram mais dois espíritos. Assim que eles entraram naquela cozinha, percebi que eram diferentes. Deles saia paz! O malvado que assoprava as maldições fugiu... Perguntei ao velho quem eram aquelas pessoas e ele disse que eram ajudadores, que vieram como resposta as orações da mulher.

Imediatamente me vi no mesmo lugar que antes. Aquela cena esvaiu e tudo pareceu ter sido uma ilusão. O homem então conversou comigo e disse que a dor que senti em minha morte, também trouxe muita dor a outras pessoas, de forma diferente, claro, mas disse que ouve muita dor! Aquela família não foi mais a mesma. Disse-me mais ainda: 

-Saiba menino! Toda vingança era contra aquela família e não contra você.
Perguntei então, por que tanta dor eu havia sentido e ele disse que eu ainda entenderia os fatos, que seriam esclarecidos, mas que por hora, me cabia saber o desfecho de tudo e saber que havia alguém que zelou por mim, com muitas orações. 

Explicou também que eu havia recebido a dádiva de adormecer profundamente, devido a minha tenra idade. Os anjos bons assim permitiram para evitar os efeitos do desejo de vingança, que poderiam ser desencadeados pela dor. O sono por longa data, me afastou de agir pela ira. Por ser puro de coração, apesar de minha fuga, da minha não aceitação, eu não tinha sido abocanhado por todas as forças maléficas, que se apropriam daqueles que estão frágeis após o desencarne. Tive um tempo de descanso, como fruto das orações que foram feitas para que fosse ajudado.