E foi assim
Fernanda Machado Freitas
Estava sentada no chão. Meu colega estava na minha frente. Ao nosso lado tinha uma pessoa adulta, um mestre, que nos orientava. Eu estava com os braços enlaçados na perna esquerda, apoiando meu queixo sobre o joelho. Mantinha a outra perna dobrada no chão. Ficava atenta, olhando a boca do mestre que falava pausadamente. Não queria perder nenhuma palavra do que ele dizia! Meu colega mantinha as pernas cruzadas, com os cotovelos apoiados sobre a coxa, as mãozinhas cruzadas uma a outra, apoiando o rosto. Olhava atentamente para uma rede que estava no chão. Olhava como se aquilo fosse algo completamente desafiador. Eu nem entendia por qual razão estava com a atenção tão fixada naquela rede.
O mestre apontou para a rede, que estava aberta no chão. Era feita de uma linha branca, de média espessura, com aproximadamente cinqüenta centímetros, num formato de quadrado. A rede às vezes parecia brilhar em alguns pontos da linha, como se tivesse pequeninos cristais. Ele disse:
-Vejam. Olhem bem.
Eu olhava, mas só via a rede. Parecida com aqueles adereços de cabelo que as mulheres usam. Cada pequeno quadrado, formado pelas conexões que os nós demarcavam, era de aproximadamente cinco centímetros, ou seja, maior do que os de uma redinha de cabelo. O mestre voltou a dizer:
-Olhe bem. Veja. Veja mais que a linha e a rede!
Ele demonstrou, por seu semblante, que eu precisava fazer o que ele dizia. Eu achei que estava olhando, mas resolvi mudar de posição. Ajoelhei e coloquei as mãos no chão, como se fosse um gatinho, de maneira que olhei a rede por cima. Naquele momento, não mais a vi. Olhei por meio dela e vi para alem. Era diferente agora... Ela não mais parecia estar colocada sobre o chão. Era como se por ela eu visse um canal que me mostrava o universo. Naquele momento viajei pelo infinito, permeado pelas luzes de estrelas, constelações, sistemas. Perdi-me na imensidão, num sentimento de paz profunda! Um misto de alegria, realização e algo como um estado de letargia, serenidade... Parecia que simplesmente estava pairando sobre o nada.
Ouvia aquela voz que dizia:
-Compreenda. Tudo está conectado! Existem pontos que garantem a inter-relação entre o todo. Perceba: Há um infinito de possibilidades e qualquer ação sobre um ponto, impactará em toda a rede! Não é possível isolar os fatos, não é possível isolar os tempos. Quando se vê para além do que é material, a compreensão e percepção se expandem. Somos talhados para perceber o que é duro, concreto e perdemos nisto a possibilidade de ver para além. Não é desprezar o que está manifesto, mas é considerar outras possibilidades de movimento, de percepção e dimensão.
-Não há como analisar determinados fatos isoladamente. Não somos seres atemporais. Vivemos épocas e o saber construído jamais é desintegrado. Ele se consolida e sobre seus elementos fundantes é estabelecida uma nova ordem direcionadora das escolhas.
O mestre ainda perguntou:
-Percebe a serenidade alcançada quando se estabelece a conexão com o todo? Educa-se o olhar para esta forma de conceber a vida. As possibilidades são expandidas.
Voltei a posição anterior e olhei aquilo que antes era uma redinha colocada no chão, como algo mais detentor de beleza. Enxerguei a redinha como algo mais valioso... Não sei explicar! Quando voltei a minha posição inicial, eu via as mesmas linhas entrecruzadas, que apesar de terem assumido outro significado para mim, eram elementos da mesma rede. O que passou a ser diferente, é que minha mudança de posição, a perspectiva de olhar por cima, de observar o todo ao mesmo tempo, me permitiu alcançar uma dimensão que ia além do assoalho onde a rede ela estava colocada.
Voltei o olhar para o mestre e ele já não estava lá. Meu colega se manteve impassível e tudo aquilo parecia ter acontecido somente comigo, num lapso de tempo que não sei expressar. Significou cinco minutos ou vinte? Uma coisa eu tinha certeza, não adiantaria pensar que deteria poder sobre o conhecimento da vida simplesmente por querer tê-lo. Obter este conhecimento se dá a medida em que há humildade para saber que não somos nós que determinamos tudo. Não é nossa lógica que determina o que virá a acontecer.
Nada no universo é em vão, nada no universo e imutável. A escolha do olhar determina o que será observado. A maneira como algo é observado, determina o detalhamento de outras percepções. Numa escala infinita, cada escolha impacta em outra, que por sua vez, não pode ser desconsiderada, apesar de não ser reconhecida. A escolha, a ação e a não ação estão ali. Tudo está conectado. A ação sobre um nó provoca mudança em todo o restante... E foi assim, mas não eram crianças que estavam sentadas ali.
Nenhum comentário:
Postar um comentário