terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A Guerreira I

A Guerreira I

Fernanda Machado Freitas   27/11/2013

Estava eu ali na terra plana da colina. O vento era frio. Entrava pelas beiradas da roupa mesmo que estivesse com a minha pele protegida pelas peles de animais. Olhei para aldeia. O que aconteceu com o meu povo? O que seria de nós? Preferiríamos ver nossos filhos sob a espada a reagir e quebrar costumes? Lágrimas vinham em meus olhos ao ver a neve que cobria a terra, ao ver no fundo da aldeia as crianças que brincavam ainda sem saber o que acontecia. Meus olhos pequenos, rasos e esticados, não conseguiam conter as lágrimas que aumentavam ao ver as mulheres, muitas mulheres assentadas e tecendo, outras mexendo na terra e outras com o olhar perdido no horizonte como se pudessem ver seus queridos voltando com o soprar do vento.

Estive ali absorta em meus pensamentos e não percebi o guerreiro que chegou com instrumento s em punho. Um caniço que era usado em combate e que como uma arte passada de pai para filho, era utilizado como defesa, ataque, proteção e extensão do corpo.Ele olhou em meus olhos e sem palavras nosso pacto foi selado. Eu escolhera isto. Sabia as consequências e estava desafiando toda a ordem. Naquele breve instante, todo o passado de crise retornou em minha mente.

Somos moradores que por muito tempo formos nômades. Em nossa terra, os grupos são consolidados e formam suas aldeias. Alguns escolhem ser nômades e outros, depois que se encontram como parte de um território, fixam suas raízes e estabelecem ali as suas moradas.

Nós encontramos aquele pequeno platô, com terra boa, um pequeno rio que descia pela montanha de pedra, mas se deitava pelo solo em pequenas cascatas. Muito verde ao redor e flores rasteiras em abundância. Um lugar desejável, conquistado em paz. Meus antepassados foram para lá numa época de grande queda de temperatura e devido aos vários níveis do rio devido ao relevo de pequenos degraus, suas águas permaneciam liquidas. Foram sustento para meu povo que até então era nômade. Fomos ficando ali e pouco a pouco estabelecemos nosso lugar.

Muitas gerações cresceram, alguns de nós íamos outros voltavam. As famílias cresciam. Os homens detinham grande sabedoria e eram ouvidos e consultados. Reuniam-se em frente à aldeia e conversavam. As mulheres não tinham permissão para conversar com os homens quando eles estavam reunidos.

As mulheres nasceram com a nobreza de garantir o futuro da prole, precisavam parir bem, cuidar e garantir que os meninos nascidos na aldeia descem bons guerreiros. As meninas por sua vez deveriam aprender com suas mães, a serem simples e silenciosas como os pequenos pássaros que sequer são percebidos, mas sobrevoam a imensidão.

Os homens nasceram com a inteligência, a força e a astúcia dos ursos que apesar de enormes, conseguem ter tonicidade e controle para pegar o mel em uma colmeia sem atiçar as abelhas. Sem serem percebidos, atacam e destroem o inimigo sem que ele tenha como correr. Nosso povo valorizava o silencio e a concentração.

Eu era um pouco diferente... Observava tudo ao meu redor. Queria ser como o passarinho, mas também queria ser como o rio que corria e descia pela montanha. O rio era sempre renovado. Um rio que em alguns dias se mostrava volumoso e forte, apesar de ser um riacho tranquilo e atrativo.

Os meninos, bem cedo iniciavam o conhecimento para o domínio do corpo e da força da mente. Eram treinados para uso da pedra, caniço e aprendiam a lutar corpo a corpo. Estimulavam os músculos e o pensamento. 

Desde pequena, gostava de ver toda solenidade e encanto das cerimônias de poder. Era assim que eu as entendia. Os meninos logo cedo eram convidados a participar das reuniões de conversa. Lá, de acordo com o comportamento deles, os anciãos com toda sua perspicácia, identificava os atributos de alma que traziam e iniciavam a sua formação. Ficava curiosa e queria estar lá. 
Nem ouvir o que era falado eu podia Às meninas, quando criança, era permitido que brincassem por perto do espaço das reuniões. Na verdade elas sequer eram vistas, pois significado algum elas tinham. Eu, sempre os deixava achar que estava entretida com a brincadeira e tentava ouvir sobre o que falavam.

À medida que cresci perdi o interesse em espreitar as reuniões. O volume de atividades aumentou e quando chegava a tarde, desejava muito estar recolhida e descansar. Algumas vezes a aldeia era atacada. Outras tribos, principalmente em tempos de neve contínua desejavam o espaço próximo ao riacho. Guerreiros de outras tribos desejavam também tomar posse de nossas mulheres devido ao grande apreço que todos demonstravam pela sabedoria e trabalho árduo de que eram capazes. 

Nossos homens eram valorizados e valentes. Podiam se dedicar ao aperfeiçoamento do corpo e mente, pois tudo o mais garantíamos que tivessem. Era uma troca justa. Eles nos protegiam e nós garantíamos toda condição de se prepararem para nos defender. Nossas mães e tias nos ensinavam a tratá-los com muito respeito e amor. A jamais contrariá-los. Crescíamos gratas e reconhecendo que se estávamos vivas e ali, devíamos tudo aos nossos guerreiros.

Voltei para o tempo do agora. Aquele breve silêncio me fez repensar a nossa historia ali. Dei um suspiro profundo... Peguei o caniço e minhas mãos começaram a tremer. Tinha assumido uma responsabilidade que eu mesma lutei para ter. Era hora de começar a honrar a transgressão de costumes que estava propondo. Outros homens que treinavam, longe de onde eu estava, me olharam e percebia neles o desprezo. O mestre também passaria por repudio, mas de certa forma acreditava que poderia ser útil o meu treinamento. Outros aceitaram minha proposta na certeza de que deveriam permitir minha ousadia, para que ao ser destruída, servisse de exemplo para outras mulheres.

Um bando vindo de terras longínquas começou a saquear as aldeias ao nosso arredor. Alguns habitantes vieram até nós e pediram ajuda. Nossos guerreiros prontamente foram para auxiliar. Estavam motivados pelo sentimento de proteção e preservação, mas também pela certeza de vitoria que sempre alcançavam. 

Tudo começou durante uma madrugada. Ouvimos o sinete tocando insistentemente. Era a convocação para os homens se reunirem no espaço ao redor do templo de adoração.Esta convocação acontecia somente quando havia risco iminente de invasão. Imediatamente as mães tentaram esconder os filhos, e ao mesmo tempo ficam meio que atordoadas, como insetos a beira da luz do fogo. Não sabiam o que fazer. Arrastando seus pés calçados com meias, iam e vinham, colocando no fogo a água pra fazer chá.

Preocupavam se logo com a comida, que deveria estar disponível para os guerreiros, caso precisassem ir para a luta. O tempo da reunião demorou e ao final dela, um terço de nossos homens ficaram designados para descer a colina e bloquear a subida, que os pardos pretendiam fazer. Pardos eram homens de pele morena que vinham de outras terras mais quentes. Eles tinham costumes diferentes, eram barulhentos, gananciosos, hostis e sujos.





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