domingo, 15 de dezembro de 2013

A História do Menino IV


A História do Menino IV

Fernanda Machado Freitas 12/12/2013

Acordei e aquela música, que nós crianças cantávamos ao redor da cabana, ecoava na minha cabeça:


Fui cuidado, fui levado, tanto cisma quão melado.
Fui detido reprimido, tanto forte cão minguado.
Fui remido, destemido, tenho forte meu legado.
Tanta terra, tanta gente, no sol forte água quente.
Fui pro mundo, pé descalço, no canavial inchaço.
Pés no chão, sol na tez, braço forte pro freguês.

A gente cantava brincando de roda, passando os dedos pelo chão e rodando em passos harmônicos... Eu como sempre dava minhas gargalhadas. Apesar de não ter aberto os olhos ainda, aquela música cantava dentro de mim. Demorei a despertar completamente, mas quando acordei, vi que estava deitado numa daquelas coisas brancas que vi na casa da fazenda. Era fofo e macio. Limpo e fresco. Diferente do chão da cabana. 

Olhei ao meu redor e vi que estava sozinho, num lugar de parede como a casa. Era de cor azul. Do meu lado tinha uma mesinha e um jarro de água transparente, com o que viria a saber, que era um copo. Engraçado... Só conhecia as cuias de água e os jarros de barro. Aquilo parecia com as águas do riacho prendendo as próprias águas do riacho! Era tão bonito! Esbocei um sorriso e nesta hora entrou ali uma senhora.




Por mais que estivesse me sentindo vivo, eu me sentia fraco. Não senti nem vontade de levantar e sentar. A senhora veio e pegou em minha mão com um sorriso no rosto. Ela me perguntou se eu estava bem. Perguntei a ela se poderia beber água. Eu queria ver como ela derramaria aquela água para me dar.


Olhei a água caindo naquele copo transparente e quando ela o colocou em minha mão, eu o segurei com as duas e fiquei olhando dentro dele, vendo através da água o meu colo que estava coberto por um pano também branco. Achei tão interessante aquilo... Saboreei a água. Sorvi cada gotinha como se fosse algo precioso demais. Como era boa aquela água!

Percebi que tinha até me esquecido da senhora que estava ali ao meu lado. Abaixei a cabeça, me senti envergonhado e agradeci pela água gostosa. Ela, com aquela mesma forma atenciosa, disse que eu não precisava sentir culpa ou envergonha. Perguntei onde estava e ela disse que eu estava entre amigos. 

Achei estranho, já que nunca tive muitos amigos e nenhum deles de fora da cabana. A senhora, como se tivesse lido meus pensamentos, me disse que amigos são aqueles que cuidam de nós e nos querem bem, mesmo que não os vejamos com freqüência. Disse-me também que amigos são aqueles com quem nem convivemos ainda, mas que são capazes de nos aceitar e amar.

Aquelas palavras eram boas, mas eu não conseguia entender bem sobre elas. Tentei me mover e aí percebi que estava como que pregado à cama. Da cintura para baixo nem mesmo sentia o meu corpo. Ela colocou uma mão perto do meu ombro direito, já que ela estava sentada do lado direito de onde estava deitado e disse para eu ter paciência, pois estava sendo tratado e que se ajudasse em meu tratamento, logo estaria andando.




Vi que ela sabia da minha historia e queria reforçar com ela, o quanto fui vítima de um pai enraivecido e de um espírito ruim, que ficou assoprando no ouvido de um pai que estava amargurado pela perda de seu filhinho, que se vingasse de mim! Nesta hora ela passou a mão em minha testa e me disse: 


-Augusto. Não há mais tempo para você sentir pena de você mesmo! Deixe ir os sentimentos que o mantém no mesmo estado adoentado e de dores. Busque sentimentos de fé e tolerância com aqueles que o fizeram sofrer... Ela pousou nesta hora as duas mãos sobre minha fronte e me senti calmo, fui me acomodando novamente e voltei a dormir.

Acordei mais sereno e com mais vigor. A mesma senhora estava ali como se esperasse meu despertamento. Pegou em minhas mãos e disse: E aí, Augusto? Como você está hoje? Disse que me sentia bem. Tentei me mexer e percebi que já sentia minhas pernas. Não sei dizer se sentia minhas pernas mesmo... A sensação era de ter algo abaixo do meu umbigo, pois fiz força para me assentar e senti o peso do restante do meu corpo. 

Quis levantar o pano e a senhora me perguntou se era o que realmente eu queria fazer. Eu disse que sim e me deparei com algo ruim. Minhas pernas estavam enfaixadas. Mas também percebi algo que me fez muito feliz: Tinha faixas nos meus pés, o que significava que meus pés não estavam esmagados... Abri um grande sorriso e nesta mesma hora, olhei e percebi que eu não era um negro. Minha barriga tinha pele branca. Assustei-me demais! A senhora me viu todo confuso e me disse: Não se preocupe Augusto. Seu corpo na terra não é sua morada eterna. 

Não entendi nada. A aflição e a angustia vieram novamente. Me senti muito fraco! Será que eu estava ficando meio maluco? Será que eu estava sonhando? Eu sempre fui o Negrinho... Como pode ser isto de ver minha barriga, meus braços, tudo branco? E meu rosto? Estava negro? Nesta hora, a senhora deu uma sonora gargalhada. Ela realmente escutava meus pensamentos... Virou-se e de uma gavetinha que ficava na mesa onde a água estava, tirou uma coisa redonda com um cabo. Colocou na frente do meu rosto e aí eu me vi. Branco. Branco. Branco. Branco mesmo!

Apesar de saber que aquele não era eu, ao olhar em meus olhos eu sabia que era eu mesmo! Confuso, não é? A partir de então, a senhora começou a me explicar muitas coisas. Explicava até o nome da cama, do copo, do quarto... Me explicou também sobre o Augusto desencarnado...

Nenhum comentário:

Postar um comentário