terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A História do Menino III

A História do Menino III

Fernanda Machado Freitas  10/12/2013

Depois de tudo aquilo que aconteceu, percebi que precisaria fazer alguma coisa, além de ficar me escondendo e tendo medo de viver. É engraçado como os tempos passam por nós rapidamente, quando já não temos aquele corpo de carne e osso. Passa rápido demais! Sempre lembrava o meu corpo inerte no chão, naquela poça de sangue seco. Ai, que angústia eu sentia! Olhei para minhas pernas na mesma hora e fiquei aliviado em ver meus pés.

Saí caminhando e perto dali vi uma grande vila. Tinha fumaça, o chão não era de barro e tinha muitas casas como as dos senhores. Fiquei escutando o que as pessoas falavam e soube que o nome daquela vila era cidade. Vi umas coisas estranhas que levavam as pessoas, de um lugar para outro, como se fossem cavalos. Mas estas coisas não exigiam que déssemos água para eles ou os escovássemos como era feito com os cavalos. Aquela coisa dava muito menos trabalho que os cavalos! Descobri então, que o nome era automóvel.

Via poucas pessoas negras pela cidade. Muitas e muitas casas perto umas das outras. E muito movimento... Muito movimento mesmo! Não tinha um lugar onde olhasse que não visse gente andando! Logo o dia caiu e a noite chegou. Senti frio e desamparo. Sentei num banco gelado e duro que ficava numa ilha de fazenda. Descobri depois que esta ilha de fazenda se chamava praça. Fiquei ali sozinho e pensativo. À medida que o tumultuo da cidade diminuiu pude observar outros espíritos por ali também.

Pela primeira vez senti falta de minha família. Lembrei de minha mãe e chorei. Encolhi as pernas no banco da praça, enlacei-a com meus braços e chorei de soluçar. O que seria da minha vida? O que seria dos meus dias? O que iria fazer? Tudo era sem sentido algum! Nem a bruxa para eu ver as conversas, nem a fazenda... Tudo tão diferente!

Lembrei da reza que a moça na fazenda fez e tentei falar com o pai do céu. Se ele era o pai do céu, que estava sobre a terra, ele teria poder demais! Poderia me ajudar! Ele fazia chover e nascer o sol todos os dias. Ele dava o alimento de nossas vidas e nos garantia o respirar. Do céu vinha tudo. Viria dele alguma resposta para minha aflição?

Encostei a testa em meu joelho e continuei chorando... Levantei o rosto, limpei as lagrimas e pensei: - Puxa vida, Augusto, será que você só sabe chorar? Lembrei de minha mãe novamente. Ela contava a historia de um menino que conheceu quando ainda era criança, que se chamava Augusto. Ela foi pequenina para a casa dele, para poder cuidar das brincadeiras com ele. Ela brincava e trabalhava brincando com este menininho. Dizia que ele tinha os cabelos feitos de raios de sol e os olhos feitos de pedaço de céu. Ela amava aquela criancinha e por isto me deu o nome de Augusto.

Na cabana riram dela quando escolheu este nome para mim, mas ela, quando nasci, me abraçou naquele pano onde enrolavam os nenéns, deu um sorriso grande e disse: - Eu já tive um Augusto no colo e o vi crescer. Quero ter outro Augusto no colo e que ele me veja envelhecer. Não deu certo o que minha mãe queria... Não a vi envelhecer...

Nesta hora, minha mãe apareceu na minha frente. Olhei direito e percebi que não era ela, mas eu sentia uma coisa boa como se fosse realmente a minha mãe. Era uma mulher mais rechonchuda do que ela, quando a vi pela última vez, mas que tinha aquele mesmo sorriso branco e grande. Ela estendeu as mãos para mim e disse para ir com ela. Fui. Não tinha mesmo para onde ir.

Ela foi conversando comigo. Disse que eu já estava preparado para aceitar a minha morte, que na verdade não era morte nada, mas uma mudança de morada. Precisaria aceitar que deixei aquele corpo triturado pela dor. Eu disse a ela que não estava me importando com o que aconteceu com meus pés. O que importava é que eu andava e corria daquele jeito que estava ali. Aí veio uma grande surpresa!

Me mostrou perto de uma árvore daquela praça, que meu corpo ainda jazia ali... Como se fosse o mesmo dia do esmagamento que sofri! Congelei meus passos, fiquei estático... Percebi que onde era aquela praça, no passado, era o lugar do moedor e da grande arvore, onde sob suas sombras, fui jogado sangrando. Ali estava a mesma árvore que me acolheu e deu energia durante meu longo sono.

Aquela cidade se formou aos arredores da grande casa da fazenda. Estava eu ali novamente, no mesmo lugar... Ela pegou em minhas mãos, sentou-se comigo na grama e disse que eu precisaria aceitar tudo o que aconteceu e ousar ter fé, para seguir meu caminho, para um lugar diferente daquele onde eu sempre estava.

Falou sobre uma morada no céu, onde minhas dores seriam tratadas, mas precisaria aceitar ser acolhido e tratado. Dependia de mim somente. Meu coração se abriu e percebi que não tinha minhas pernas e meus pés. Olhei para baixo e desesperei! Não poderia mais correr! Ela me abraçou ternamente e disse: Confia! O Pai do Céu cuida de você! Vi que muitas pessoas brilhantes estavam ao meu redor. Foi a última coisa que vi. Adormeci imediatamente nos braços daquela mulher. Foi um sono repentino e profundo.




Nenhum comentário:

Postar um comentário