terça-feira, 10 de dezembro de 2013

História do Menino II


História do Menino II

Fernanda Machado Freitas 09/12/2013


Estava de novo só. De repente, o tempo parece que parou! Um vento fraquinho soprou e até vi uma poeirinha levantar. Quando olhei para o lado, vi um homem, ali, sentado, olhando e sorrindo para mim. Ele era negro como eu, mas usava uma roupa branca e tinha um rosto sereno, apesar das rugas da velhice. Ele me perguntou: 


- O que há garoto? Por qual razão você sente tanta tristeza? 

Claro que contei pra ele. Tudinho, tudinho... Disse que gostaria de me vingar daquele que me fez tão mal, mas que por covardia, o desejo de vingar passou. Havia dormido muito e quando acordei tudo estava diferente. Não reencontrei aquelas pessoas de antes. O homem me disse:

-Olhe para frente...

Olhei e não vi nada. Voltei meus olhos para o homem e que me disse novamente:

-Olhe! Apenas olhe! Se acalme e veja o que pode ser visto...

Nesta hora, abriu-se em minha frente uma imagem, como se eu estivesse novamente lá na fazenda. Eu vi a casa. Era noitinha... O homem pegou em minha mão e me levou lá para dentro dela. Nunca imaginei que havia um lugar tão lindo! Era diferente. Havia moveis de uma madeira meio vermelha. Levou-me onde os brancos dormiam e fiquei maravilhado! Tinha vontade de pular naquela coisa fofa, branca onde eles dormiam. Vi uma pequena menina dormindo ali... Quando eu pensei em pular, imaginei que poderia acordá-la e aí sim, poderiam me surrar muito!

Na mesma hora pensei que isto tudo esta estranho demais! O homem pensou e eu ouvi o pensamento dele... Franzi minha testa não entendendo o que estava acontecendo e ele me disse que estávamos visitando o passado, para que eu compreendesse algumas coisas. Olhou para um canto do quarto o que dirigiu meu olhar para o mesmo lugar. Vi aquela moça que me olhava com carinho quando estava na varanda, sempre que eu me enganchava na cerca.

Ela estava ali no canto. De olhos fechados, ajoelhada com uma corrente fina de bolinhas nas mãos. Chorava sem fazer nenhum barulho. Eu via as lágrimas correrem em seu rosto. Na frente dela estavam acessas duas velas sobre uma mesinha, onde ela se escorava. Tinha também duas imagens, de uma mulher e de um homem, que parecia um guerreiro. O velho homem olhou e me fez pensar que deveria aproximar dela e estar atento. Imediatamente fiz o que ele sugeriu. Para minha surpresa, passei a ouvir a voz daquela mulher também.



Sem que ela mexesse seus lábios eu ouvia o que pensava enquanto chorava. Lembrava-se de seu filho, e ai percebi que ela era a mãe do menininho que caiu no buraco, quando corria atrás de mim. Como estava sofrendo! Ela também se lembrou de mim. Sim, de mim! E então chorou mais e mais... 


Ela dizia em seu pensamento que gostaria de pedir ao “pai do céu” e a “rainha mãe de Jesus”, que cuidasse de nós dois e nos pusesse em seu colo. Pedia para esta rainha nos amar assim como amava o menino Jesus... Não entendi bem o que era essa rainha e esse menino Jesus, mas sentia que eram bons e que o que a mulher queria era que os deuses nos protegessem. Sentia que a mãe sofria pela perda do filho e sofria pelo que tinha acontecido comigo. Era uma dor profunda... 

Senti-me triste por ver aquela moça, por quem sempre tive um carinho, sofrendo, mas me senti agradecido por se lembrar de mim com amor e por pedir ao “pai do céu” para me colocar no colo dele também... E o mais lindo era que ela pedia para me colocar no colo dele junto com o filhinho dela. Para ela eu não era um bicho ou um menino mal... Ela sabia que eu não matei o menino! Olhei para o homem e minhas lágrimas escorreram. Escorreram em abundancia. Ela sabia que eu não era um gênio do mal! Senti a dor que aquela mulher sentia e comecei a chorar muito... Ela perdeu o filho e por alguma razão se sentia muito triste por eu ter morrido... Em sua reza ela dizia para que eu encontrasse paz e pedia perdão pelo que o seu marido havia feito... 

Imediatamente fui transportado para a cozinha. Estava frente a frente com o homem que me arrastou e esmagou meus pés e perna. Como ele estava diferente! Envelhecido, muito gordo, com o rosto rosado demais e totalmente bêbado. Havia tanta angústia, tanto sofrimento em seus pensamentos! Quando cheguei perto dele, vi que ele sentiu um arrepio. Ouvi também o seu pensamento. Ele relembrava momentos que passou com seu filho antes de vê-lo morto no fundo do buraco. Lembrava da sua aflição tentando tira-lo de lá. Lembrava exatamente da cor arroxeada do menino... Na mesma hora ele se lembrava dos meus gritos de dor...



Cada vez que ele ouvia aqueles meus gritos e pensava em mim, enchia um pequeno copo de bebida e engolia vorazmente. Era como se a bebida apagasse o pensamento e a voz que o atormentava. Vi, naquele instante, que sentado perto dele estava aquele mesmo homem que andou ao meu lado enquanto era arrastado pela terra. O homem estava do mesmo jeito. Nada havia mudado, a não ser sua aparência que era ainda mais desleixada e suja. Neste momento foi que percebi que ele era um espírito também.


Ele ria e falava no ouvido do homem que era o pai do menino morto:
-Veja o que você fez! Trouxe maldição sobre a sua casa! Desonrou seu pai e sua mãe. Matou uma criança da mesma maneira que ela matou seu filho. És tão maldito quanto aquele negrinho infernal. És pior! Ele era uma criança e você, um homem adulto e branco, que maltratou, matou e se vingou! Não merece estar vivo!

Quando dizia isto no ouvido do pai, instigava nele o desejo de se matar. Ele sentia que não merecia viver e ver sua pequena filha crescer. E se a maldição do assassinato do Negrinho se voltasse contra sua família? Pegou uma grande faca e ia cortar os pulsos. Fiquei aflito! Queria impedir! A jovem mulher sofreria ainda mais... 

Naquele momento, percebi que sentia mais que carinho e gratidão por aquela mulher. Eu sentia um grande amor e queria protegê-la! Pedi socorro ao homem que me levou até aquela casa. Na mesma hora, ele me fez sinal para ficar calmo. Sinalizou para que olhasse ao meu redor, e então vi que chegaram mais dois espíritos. Assim que eles entraram naquela cozinha, percebi que eram diferentes. Deles saia paz! O malvado que assoprava as maldições fugiu... Perguntei ao velho quem eram aquelas pessoas e ele disse que eram ajudadores, que vieram como resposta as orações da mulher.

Imediatamente me vi no mesmo lugar que antes. Aquela cena esvaiu e tudo pareceu ter sido uma ilusão. O homem então conversou comigo e disse que a dor que senti em minha morte, também trouxe muita dor a outras pessoas, de forma diferente, claro, mas disse que ouve muita dor! Aquela família não foi mais a mesma. Disse-me mais ainda: 

-Saiba menino! Toda vingança era contra aquela família e não contra você.
Perguntei então, por que tanta dor eu havia sentido e ele disse que eu ainda entenderia os fatos, que seriam esclarecidos, mas que por hora, me cabia saber o desfecho de tudo e saber que havia alguém que zelou por mim, com muitas orações. 

Explicou também que eu havia recebido a dádiva de adormecer profundamente, devido a minha tenra idade. Os anjos bons assim permitiram para evitar os efeitos do desejo de vingança, que poderiam ser desencadeados pela dor. O sono por longa data, me afastou de agir pela ira. Por ser puro de coração, apesar de minha fuga, da minha não aceitação, eu não tinha sido abocanhado por todas as forças maléficas, que se apropriam daqueles que estão frágeis após o desencarne. Tive um tempo de descanso, como fruto das orações que foram feitas para que fosse ajudado.

Nenhum comentário:

Postar um comentário