O guerreiro ancião, nosso sábio maior, com um tom de voz melancólico me disse:
-Menina. Quão leviana é sua proposição. Levante-se e saia.
Sem ouvir mais nada obedeci, e sob o olhar dos guerreiros que estavam ali, saí silenciosamente temendo ter ferido o espírito de meu pai que morrera em um combate entre tribos, quando ainda era pequena. Tão logo me distanciei dos olhares que estavam sobre mim, um aperto no peito me sufocou e caí em pranto profundo.
Me senti inadequada e cruel. Parecia que meu pedido tinha sido uma afronta, como uma acusação de fraqueza para nossos guerreiros, mas não era esta minha intensão! Só queria ajudar e temia pela nossa continuidade ali... Era perceptível que em mais um combate, com perdas significativas como estávamos tendo, certamente ficaríamos relegadas ao domínio dos invasores. Crianças e mulheres, todas seriam tomadas por escravas. Para que a manutenção do orgulho e da supremacia masculina em nossa aldeia, se não tivéssemos mais como nos mantermos unidos como povo? Será que eles não entendiam assim?
Em meio a meus pensamentos, regados pelas lágrimas que não cessavam, fiquei como uma menininha desamparada, com os joelhos ralados após uma queda. Encolhida, senti uma brisa suave vindo sobre mim. De meu interior surgiu uma voz forte. Ouvi como se saísse de meu coração a seguinte orientação:
- Segue em frente com seu intento. Verás a necessidade de estar a frente e proteger nosso povo da morte. Suas ações serão justificadas pelas suas intensões de proteção e sobrevivência. Sê forte. Persevera e ergue-te. Foste separada para ser parte de um novo tempo, onde não existirá separação de papéis por razões se submissão e superioridade. Os papéis serão assumidos pela busca do bem maior. O bem comum.
Com minhas mãos procurei afastar as lágrimas dos meus olhos e me ergui. Deparei-me com um jovem guerreiro, que havia assumido o treinamento nos meninos, que foram chamados ao treino físico. Baixei meu olhar e me senti corar, ainda constrangida pelo que vivera a poucos instantes... Passei por ele que me segurou pelo braço e disse:
-Meu pai pediu que lhe dissesse para estar no platô das orquídeas amanhã, quando o sol nascer, para que seja testada.
Disse apenas assim. Um frio percorreu minha coluna. O que haveria de acontecer comigo? Tão abrupta foi a informação que não tive tempo de assimilar nada. O jovem seguiu seu caminho. Cheguei em casa, cuidei dos afazeres e me recolhi. Lembrei daquela inspiração que tive quando chorava e disse em voz alta para que eu mesma escutasse e acreditasse: Persevera e ergue-te. Dormi e tive uma noite tumultuada, com sonhos de choros e perdas... Eu era pequena, ouvi o soluço de minha mãe. Soube que meu pai, valente guerreiro havia ficado em uma luta para proteger-nos. Era assim que dizíamos: Ficou. Não pensávamos que um guerreiro haviam morrido. Eles ficavam. Seus espíritos permaneciam em continua proteção à aldeia, após terem seus corpos levados para o reino dos mortos.
Acordei bem cedo. Não sabia o que me esperava. Nada disse a minha mãe. Segui para o platô e lá encontrei o guerreiro pai do jovem que me deu o recado. Apenas me disse que iria me ensinar as artes de guerra, assim como eu pedi na reunião dos homens, apesar de ser uma mulher. Estava eu ali, vendo os homens guerreiros serem treinados ao longe. Olhavam para mim como se fosse uma aberração. Olhei para a aldeia. A força e a coragem me fortaleceram.
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