sábado, 4 de janeiro de 2014

A GUERREIRA V

A GUERREIRA V

O platô era uma região onde o vento frio percorria nosso corpo como se fosse cortá-lo. Voltei ao tempo presente. Pensava sobre a situação do meu povo. As mulheres sofrendo as perdas mas mantendo as mesmas práticas. Emocionada como fiquei, foi fácil ao guerreiro perceber minha completa fragilidade, mas olhei-o nos olhos com a força dos que desejam viver. 

O guerreiro me entregou o caniço. Digo caniço, por ser um bastão muito fino. Não tinha  a mesma robustez dos bastões utilizados pelos guerreiros. Somente depois compreendi que antes de qualquer coisa, eu deveria preparar meu corpo para a defesa e o ataque. Mãos, pés e principalmente minha mente, deveriam ser usados como parte do maior instrumento de combate: meu próprio corpo. 

Tinha muitas perguntas mas não ousei fazê-las naquele momento. Dediquei-me ao treino. Cada palavra que era dita por meu mestre, era sorvida como se fosse a última gota de água de um manancial seco. Não poderia perder nada, deixar de aprender ou não absorver a riqueza de cada orientação seria uma lástima. Apesar de meu empenho, ao final, senti a exaustão de uma vida sob meus ombros... Não poderia desfalecer apesar do corpo contraído de dores e fadiga. 

Algumas mulheres ficaram por toda manhã espreitando ao longe o que acontecia, mas nenhuma ousou aproximar-se. Algumas crianças viram e até tentaram correr para o lugar onde eu estava, mas eram seguradas por suas mães e levadas para dentro das casas. Quando tivemos o fim do trabalho, desci para casa. Toquei minhas vestes que estavam ensopadas e sujas. Muitos foram os tombos e as quedas que tive. Estava suada apesar do frio local. Percebi mulheres que deixaram de olhar para mim e as mais velhas, algumas com o senho fechado, como se desaprovassem minha atitude, que para elas, desonrava o sacrifício de nossos valentes.

Dias se passaram em calma desde então. A parte da aldeia que foi queimada começou a ser reconstruída. O dia a dia voltou a ser como antes, apesar dos treinos continuarem intensos. Ao cair da tarde, num certo dia, vimos aquela nuvem escurecida, que pressagiava dores. Fumaça em volumosos rolos, corriam pelo céu em diversos pontos, vindos do sopé da colina. O alvoroço foi geral! Imediatamente o sino tocou e os homens se reuniram. Não sabia o que fazer. Corri para abrigar as crianças e ajuntar alimentos para que fôssemos para um pequeno abrigo entre as rochas, que passamos a ter, após as últimas perdas de guerreiros, com as flechas em profusão vindas do céu.

Para este combate, definiu-se que os nossos homens guerreiros, se colocariam em lugares planejados para defesa, sem que fossem percebidos, num espaço entre as aldeias debaixo e a nossa. Foram armados e confiantes. Iriam impedir que os inimigos chegassem até a aldeia e colocariam um fim em todo aquele período de aflição. Os homens haviam desenvolvidos algumas bolas de lama com espinhos encravados que serviriam de ataque para desestabilizar os pardos em seus cavalos e assim propiciariam que fosse decapitados. 

Contavam que atacariam nossos inimigos sem que esperassem, pois sempre éramos aqueles que descíamos e protegíamos nossas áreas. Da última vez, nos pegaram de surpresa, vindo silenciosamente até nossa aldeia e promovendo a chuva de flechas. Esperávamos que eles utilizassem a mesma estratégia, só que desta vez seriam atacados sem que esperassem, antes de chegarem à aldeia. 

Para nosso horror, tivemos inimigos mais ferozes que outrora. Estavam definidos a derrotarem os guerreiros de nossa aldeia. Os pardos dividiram-se. Sem que jamais esperássemos, parte deles subiu a encosta íngreme e sem nenhum uso comum para acesso à aldeia. Vieram margeando as quedas de água e escalaram a colina chegando à aldeia de surpresa, enquanto os demais, a maioria deles, veio pelos caminhos mais comuns. 

Nossos guerreiros conseguiram alcançar parte do plano feito. Atacaram os pardos sem que esperassem, o que lhes deu alguma vantagem. Porém, logo viram que a vantagem obtida não era suficiente, diante do grande número de mouros que bestialmente subiam a colina. Nosso guerreiros lutaram bravamente, fizeram os pardos recuarem, mas foram muitos os que ficaram naquela batalha.

Quando fomos nos abrigar entre as rochas, fiquei em alerta, sentindo que parte da responsabilidade de proteção também era minha, já que estava sendo treinada. Por estar em estado de alerta e por estar já numa área mais próxima a encosta, pude perceber a movimentação de alguns homens vindo para nos atacar. O que seria de nós? Enquanto tudo acontecia no campo, nos deparamos com o ataque de alguns inimigos que subiram a encosta íngreme e chegaram a nossa aldeia pelos fundos. Ali tínhamos apenas os mais jovens guerreiros, os anciãos, as mulheres e crianças. 

Corri até os anciãos e aguardei orientação. Junto com vários jovens guerreiros voltamos,  para trazer as mulheres e crianças novamente para um das casas da aldeia. Nos colocamos a postos, dispostos ao combate apesar de nos entreolharmos sem saber o que fazer ou o que estava acontecendo. O medo que me abateu foi enorme! 

Alguns dos meninos guerreiros encararam a situação como uma brincadeira. Não imaginavam que seria uma brincadeira de morte. Lançaram-se como se estivessem num treino e não fossem ser feridos. Vi a crueldade manifesta no sangue, que jorrava da barriga dos meninos, que nem sequer tiveram tempo para compreender o que acontecia. Não estavam brincando de lutar. Não eram heróis protegidos pelos deuses. Eram meninos. De carne e ossos, que se feriram sem compreender a verdade da vida. 






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