quarta-feira, 27 de novembro de 2013

História do Menino I



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História do Menino

Fernanda Machado Freitas – 18/12/2013

Estava lá, de novo assentado na cerca. Uma das pernas, a esquerda, esticada apoiando o corpo entre a primeira e a segunda ripa. A outra, a direita, passava sobre a última e me fazia ficar enganchado ali, perto de uma das estacas que firmava a cerca ao chão.
 
Era bom ficar ali olhando. Tinha dias que ia pra lá, sentava no chão perto da cerca e ficava  olhando e comendo alguma fruta que tinha achado pelo caminho. Às vezes dava muitas gargalhadas só de olhar pra casa e pras pessoas de lá. Não sei dizer os nomes deles. Eram  diferentes do meu. Chamavam-me Menino e em outras horas, Negrinho, mas o nome deles era diferente. Ouvia algumas vezes como eles chamavam as outras crianças...

Tinha sempre as três mulheres sentadas na varanda. Tinha as crianças que às vezes me olhavam e se escondiam nas janelas... A gente brincava gostoso... Eu percebia que elas estavam me olhando e aí eu levantava os braços, balançava as mãos e dava uma gargalhada enorme. A pequenininha se escondia se abaixando na janela... Aí que eu gargalhava mesmo!  Daria para ouvir de longe a minha risada.

A moça da varanda percebia e me olhava calmamente com um sorriso no rosto. As moças e a senhora conversavam, mas na maioria do tempo só trabalhavam com fios coloridos entrando e saindo do pano. A cerca ficava longe, mas dava pra ver que elas conversavam tranquilas. Uma delas, a mocinha que até nem era a mais bonita delas, ficava sempre numa cadeira escorada na parede, perto da porta da casa.

Era ela a que às vezes me olhava com um sorriso tranquilo e discreto. Ela tinha a pele bem branca. O nariz era fino e reto. Os olhos pequenos e escuros. Os lábios fininhos, quase como uma linha. Ficavam sempre meio apertados como se esboçassem um pequeno sorriso. Quando ela me olhava, parecia que eu podia ver o rosto dela de perto. O das outras não me chamava atenção, mas ela me fazia sentir um pouco como se eu estivesse lá de verdade. Era como se ela aceitasse que eu estava ali, sem brigar. Eu não era um bicho ou uma planta, mas também não precisava me espantar de lá. Só isto já era bom!

O que mais me intrigava: Como aquelas pessoas deviam sofrer de calor com toda aquela roupa! E as mulheres que além de toda roupa, ainda usavam uma coisa na cabeça que prendia o cabelo. Era como um turbante, mas tampava a cabeça toda e era amarrava debaixo do queixo. Ainda tinha um paninho branco em volta da cabeça. Não entendia bem o que era... Engraçado também, que as roupas eram todas de um azul escuro. Até a das crianças! Como deviam sentir calor! Estava eu lá só vestido com um calção velho e apesar de estar na sombra da árvore, além do dia estar fresco, me sentia cheio de calor!

Olhei meus pés e vi que estavam vermelhos de poeira. Dei outras risadas. Eu estava era muito cheio de natureza. Meu pé parecia um tronco de árvore que secou depois da chuva e o barro vermelho grudou... Que delícia! Passei boa parte da tarde assim, só dando risadas, olhando pro alto da cabeça, de onde via as folhas, galhos e flores amarelas da árvore grande que margeava a cerca. Meu lugar preferido!

Já tenho doze anos. Descobri a cerca e a brincadeira quando ainda era pequeno... Tinha aprendido a correr a pouco tempo, na primeira vez que me estiquei entre as ripas da cerca e fiquei olhando pra casa. Mais uma manhã... Todos saíram para o plantio. Algumas das mulheres foram pra casa dos senhores trabalharem na cozinha. Outros foram pra casa também trabalhar em outras atividades, lavar e esticar as roupas dos senhores, limpar e brincar com as crianças. Tinha muita coisa pra fazer naquela casa! Lenha pra cortar, quintal para limpar, os cavalos... Ah... Os cavalos! Como davam trabalho esses bichos!

Eu já estava em meu lugar preferido: Enganchado na cerca. Os tempos passaram. Os meninos da casa envelheciam diferente. Eles ficavam cada vez mais branquinhos e mais gordinhos e com o rosto bem rosado! Eu ficava mais espichado, mais preto e mais magrelo. Pode ser que não eram eles que ficavam mais brancos e eu sim é que ficava mais preto. Não tinha pensado nisto...

Uma das moças da cabana disse que minha farra ia acabar e já era hora de ir para o plantio todo dia. Hoje, trepar na cerca tinha um sentido diferente então. Sentia-me mais alegre que nos outros dias e nem pensava em não ir mais ali. Vi as crianças se esgueirando na janela. Elas já me procuravam na cerca. Comecei com as minhas molequices, a levantar os braços e dar as minhas gargalhadas. Eu gostava mesmo daquilo e já esperava as pedradas.

À medida que as crianças foram crescendo, elas passaram a vir brincar comigo. Saiam de casa e pegavam pedras no quintal. Jogavam pedras em mim e eu corria delas gargalhando até! Elas vinham correndo atrás de mim, mas eu sempre conseguia correr mais e me esconder. Como era divertida nossa brincadeira! Tinha dias que eles saiam pelo portão da cerca e corriam pela fazenda afora, tentando me acertar com as pedras. Às vezes isto acontecia, mas aí eu fazia mais peraltices e mais alta minha gargalhada saia.

Eu corria até que encontrasse algum lugar para me esconder. Quando elas desistiam de correr e jogar as pedras, eu parava suado e cansado. Colocava minhas mãos sobre os joelhos e me esticava, suado muito, com os pés doendo de tanto pisar em pedras sem nem olhar o chão, mas estava feliz. Brincamos assim sempre. Nunca conversamos. Nunca nos aproximamos. Esta era nossa forma de conviver. Assim eu era feliz.

Naquele dia, as crianças saíram da cozinha e pegaram as pedras. Era uma menina só e os outros eram meninos. Lá vinham eles. Desci da cerca com as mãos balançando e rindo demais. Estava com o cabelo grande, mas era grande para o alto. Quanto mais ele crescia mais ele ficava para cima. As crianças vieram correndo atrás de mim. Passaram pelo portão e nossa brincadeira continuava. 
Resolvi correr para o outro lado da fazenda. Nunca corria para aquele lado e já tinha um tempão que não passava por ali. Lá na frente, tinha um canavial, onde poderia me esconder até que as crianças desistissem de me jogar as pedras e lá eu poderia me deliciar por brincar como sempre brincamos. Quanto mais corria, mais eles corriam também e iam desistindo pouco a pouco. Um deles nunca desistia e continuou correndo.

De repente caí em um buraco e logo depois o menino também caiu. Mais do que depressa, arranhei as paredes de terra e fugi dando as mais altas risadas. Consegui escapar! Fui para nossa cabana passando entre os pés de cana. Sentia-me a pessoa mais feliz de todas! Entrei lá e como sempre, o povo estava reunido. Já era noitinha. Algumas mulheres mais velhas sentadas num canto. As outras em roda, tombando de um lado para outro cantando as canções da terra.

Os homens e as crianças ficavam dispersos dentro e fora da cabana. Lá fora tinha um toco. Era a lembrança contínua de que aquele que errasse seria castigado. Sentia pavor de me amarrarem lá! Não senti vontade de brincar. Brincar com as crianças da cabana era diferente. Não era divertido como era a corrida com os meninos da casa. Na cabana tínhamos poucas meninas. Engraçado é que não me lembro de nenhuma menina lá. Logo que elas aprendiam a andar e  a se cuidar eram levadas para outras casas.

Sentei perto dos homens do lado de fora da cabana e fiquei escutando as conversas. Um velho de histórias contava o que sabia e o que já tinha vivido. Falava da grandeza do mar que ele conhecia. Escutávamos sem conseguir imaginar bem o que era o mar. Quase todos nós tínhamos nascido ali ou por ali. Não conhecíamos muitas águas além daquelas dos riachos daquela região.Noite tranquila... Existem noites que o canto de terra fica mais fresco.

Sempre durmo do lado esquerdo, com as pernas encolhidas e as mãos debaixo da cabeça, assim formiga não entra na boca e fica mais macio também, mais parecido com o fofo da perna da mãe antes dela ficar doente. Ela era toda fofa, rosto redondo e sorriso grande como o meu. Quando vejo flor branca lembro-me dela. Do sorriso dela. Agora magrela, também tem a perna seca e nem seu sorriso no rosto vejo com frequência. Deitar com a cabeça em sua perna deve ser igual deitar com a cabeça na ripa da cerca. Prefiro apoiar meu rosto com as mãos... Vem o sono gostoso...

Opa! O que está acontecendo?! Estão me arrastando pelo chão! O dia estava clareando, o  céu ainda não tinha sol, a brisa era um pouco fria e o céu só clareava com a presença de algumas estrelas e de repente me vi já do lado de fora da cabana. Um homem com um chapéu de couro andava ao lado da minha cabeça. Meus ombros que eram arrastados pelo chão de terra doíam e eu tentava me debater. Queria correr! Esticava os pés e pernas, mas não conseguia me desvencilhar! Tinha medo de gritar e me amarrarem no toco. Eu grunhia, não sei se pela confusão que passava em minha cabeça ou pela dor da mistura do sangue com a terra em meu lombo.

O outro homem que nem via o rosto, me puxava para longe da cabana aos solavancos. Alguns dos meus, quando ainda perto da cabana, acordaram e vinham ver o que estava acontecendo. Cochichavam em duplas ou trios e nada faziam. Eles não entendiam o que estava acontecendo, mas em cada olhar estava estampado: êta menino! Aprontou alguma coisa errada senão os senhores não estariam aqui! Nem eu entendia o que estava acontecendo, mas uma coisa tinha certeza: não tinha aprontado nada de errado!

Que dor! Minha pele surrava na terra, já estava ferida e muito ferida, considerando o ardor que eu sentia e só ouvia o homem da frente esbravejar. Nunca o tinha visto na vida, mas não podia falar com certeza, já que não dava para ver o seu rosto bem. Ele era meio gordo e mais baixo do que aquele que estava ao meu lado. Até pensei que era um sonho ruim e que iam me levar para o toco, mas por qual razão? Para o toco não iam me levar já que estávamos bem longe da cabana, a considerar o tempo que eu estava sendo arrastado pelos pés.

O homem que estava ao meu lado caminhando apressado, olhava pra mim e mostrava um riso sarcástico no rosto. Ele às vezes chupava um dente quebrado que tinha do lado esquerdo da boca. Que barulho nojento e que me dava medo! Para onde eles estavam me levando? Percebi que havia muita raiva no homem da frente e fiquei me perguntando: será que eles me confundiram?
Parece que o tempo parou. Quando percebi o sol já vinha alto e eu estava ali no chão. Que dor! Que dor! Não conseguia me mexer.Tentei levantar e não consegui, mas o que me esgueirei foi suficiente para ver muito sangue ao redor de minhas pernas. Muito sangue, formigas e alguns mosquitos. Via tudo, mas não via meus pés. O que tinha acontecido? Não entendia. Será que estava ainda sonhando? Não via parte de minha perna esquerda. Era um embolorado de carne. O sol ficou forte, muito forte! Tão forte e depois veio uma escuridão...

Meu corpo doía cansado. Era difícil até me virar. Parecia que tinha dormido muito profundamente e por muito tempo. Levantei de onde estava e fui para o outro lado da árvore onde estive deitado. Algumas lembranças começaram a vir em minha cabeça. Eles me puxando, esfregando minha pele pela terra. Aquele homem estranho me olhando com aquele sorriso debochado no rosto. Meus ombros arrepiaram...

Lembro exatamente a sensação de ser erguido pelos pés num solavanco. Um dos homens segurou meus braços. Minha cabeça ficou meio que entre as pernas dele e aí percebi que eu estava na área do moinho de cana. Pensei que eles queriam me dar um susto, mas senti medo, apesar de jamais ter imaginado que uma pessoa poderia fazer tanto mal a outra, como era o que fariam comigo!Não considerei a possibilidade de que eles iriam me moer, como se minhas pernas fossem cana!

Um dos homens disse: Agora Negrinho, quero ver você correr por aí! E ria daquela forma sarcástica, ao mesmo tempo em que lambia a saliva que escorria do lado esquerdo da sua boca. O outro homem, o que me arrastou, pegando pelos meus pés, dirigia minhas pernas para o moinho e somente aí vi o seu rosto. Era um rosto de dor e raiva o que ele expressava e ao cruzar seu olhar com o meu, percebi certa confusão. Pode ser que esta confusão fosse fruto da minha angústia, do meu medo e do não entender o que estava acontecendo. Não sei...

O olhar do homem que me arrastou pela terra e me expôs ao esmagamento era mais humano, menos animalesco do que o rosto daquele que esteve acompanhando toda a situação, como se desejasse assegurar que o mal aconteceria. Ele estava ali, acompanhando, zombando com o olhar, oportunista da dor. Descobri aí, que existem seres que se alimentam da dor alheia. Que se fortificam pela garantia e reforço do erro do outro em momentos de desespero. Custei a compreender a profundidade disto, mas sabia que este homem estava ali, apenas pelo prazer na dor e para garantir que pela dor, mais dor fosse provocada.

Quanta dor! Quanta dor! Como dói! Ouvi os ossos quebrarem. A pedra do moedor não teve o mesmo poder de esmagar as pernas com a mesma rapidez que fez com meus pés. A dor ainda era maior! A pedra voltou e eu já não gritava mais. Será que gritei? O que fiz para merecer o castigo? Por qual razão estavam me machucando assim? Quando já estava mole nas mãos do homem, nem ouvia mais sua gargalhada, escorregava entre seus dedos tanto era o meu suor de medo, sofrimento e pavor.

Deixaram-me ali sangrando. Jogado no chão. Onde estava minha mãe? Onde estava algum dos homens da cabana? Nem o velho das histórias apareceu... Mas o mar que ele tanto falava começou a fazer barulho em meus ouvidos. Eu estava lá! O mar grande... As ondas... Será que o caminho para ver o mar começava no moedor? Flutuei nas águas. Dormi.

Ao ter estas lembranças quis dar a volta na árvore novamente e voltar ao lugar onde acordei. Qual não foi minha surpresa ao ver meu corpo lá, estendido no chão. Estava amarelo. Os pés não existiam mais, os pedaços de ossos misturados aos fiapos de pele e pé estavam misturados com terra e pequenos bichinhos junto com as formigas. Já era noitinha novamente. O tempo passou rápido demais com minhas lembranças. Tudo lá, mergulhado numa poça de sangue seco...

Às vezes o frio gela a espinha. Nem estava longe do calor! Aquele frio que vinha junto com um embrulhar do estômago e que apareceu em mim, era algo que já senti antes, como prenúncio de que fiz algo errado, ou ainda quando alguma coisa ruim estava para acontecer. Aquele frio percorreu meu corpo. Foi assim que me senti, ao olhar aquela cena O que mais prendia minha atenção era a cor escura que ladeava o corpo caído. A escuridão do sangue.

No início, não dava para entender que aquele corpo era o meu. Confuso, senti como se uma grande força tomasse posse de mim, mas não do corpo inerte que ali estava caído, mas do corpo que eu me investia dele e que ainda tinha pernas. Sentia que eu crescia em forma. Urrei como um animal e percebi que era uma força estranha, brutal, sustentada e estimulada por um desejo de vingança. Como um monstro, abri os braços e os encolhi ao lado do corpo gritando meu não entendimento sobre tudo, a minha revolta pela bestialidade cometida, meu rancor pela ausência de socorro e principalmente meu apego e motivação para a vingança.

Um vômito amargo esguichou da minha boca e somente então caí. Caí em um choro profundo. Convulsivo choro... Eu era uma criança. Achava tudo tão lindo! Amava correr e gargalhar. Gostava de ver os outros felizes, amava as coisas simples, tal como brincar com as formigas, cercando com as mãos o caminho delas e observando a sabedoria que elas detinham para se desviarem dos obstáculos.

Eu era apenas uma criança! Por que fizeram assim comigo?! Tiraram meus pés e parte das pernas! Deram-me dor, aflição e morte. Eu era apenas uma criança... O choro copioso saia de meus poros, pelas lágrimas, suor e secreções diversas. Quando me percebi, estava exausto, molhado, encolhido como um bebê no colo materno, encolhido perto das raízes da árvore, apenas encolhido ali... Estava cansado, a noite ia adentro. Sentia sono e medo dos sons, do frio que vinha da noite no sereno, mas principalmente havia o medo de acordar e não poder mais caminhar... Dormi... Dormi... Dormi...

Ali naquele canto, me mantive encolhido e adormecido por muitos tempos e épocas. Sei disso por ter sentido que as épocas passavam por mim. Muitas e muitas vezes as folhas das árvores caíram completamente. Esqueci quantas vezes o som da chuva persistente, em períodos contínuos, me acalentou o sono. Tinha muito medo de abrir os olhos e ver novamente aqueles homens maus. E se me colocassem novamente no moedor? Eles poderiam surgir do nada, como naquela noite, mas meu maior receio era o de abrir os olhos e acordar, sem condição para pular, correr e gargalhar.

Um dia um cântico começou a me incomodar. Tirava a quietude e a sensação de inexistência que dava aos meus dias a fluidez de um tempo eterno e atemporal. Passou... O cântico passou. Voltei ao meu sossego. O breve despertamento, mesmo que incompleto, era suficiente para provocar o ressurgimento da energia de ira e vingança quando pensava sobre o passado e ele se tornava presente. Dias a fio ouvi o cântico, até que aquela força descontrolada me fez levantar. Iria jogar para longe, aquela pessoa que ousava me tirar a possibilidade de descanso! Quem estava ali cantando, me incomodando daquele jeito?

Acordei e tentei me levantar. Os movimentos foram difíceis, mas pelo menos senti as minhas pernas, o que me deu um grande conforto. Meus pés estavam lá! Um sorriso pequeno tentou sair de meus lábios, mas na mesma hora segurei-o. Não iria sorrir mais. Nem gargalhar, nem mostrar qualquer sentimento bom durante toda a minha vida. Acabou! Ao me levantar fiquei meio que agarrado numa serie de fibras que prendiam meus braços, pernas, todo meu corpo.

Eram densos fios de aranha, que articuladamente entrelaçados, criaram um casulo ao meu redor. Pareciam aqueles ninhos que as aranhas formam no tronco das árvores. Quando consegui me desvencilhar daquilo, observei que eu parecia uma semente aberta, um broto de feijão, encolhido como um feto e envolto no fluido que me ligava àquela árvore frondosa, que certamente me serviu de alimentação e sustento.

Naquela época não entendia, mas a árvore me envolveu em energia para que eu alcançasse sobrevivência e de certa forma ela me protegeu. Deu-me morada e proteção. Meditei e percebi que ali houve troca de amor. Sempre as amava tanto também! Meus momentos mais felizes sempre foram sob a proteção delas e agora, mais uma vez sentia gratidão, por ter passado tanto tempo sob sua proteção! Só não imaginava quanto tempo estive ali, meio que entorpecido, paralisado pelo medo, na ânsia de proteger-me da dor.

Enquanto me esforçava para tirar aquela gosma seca que me envolveu, não percebi uma mulher que estava próxima da árvore também. Seria ela a pessoa que cantava, interrompendo o torpor no qual me encontrava? Olhei bem para ela que estava de costas para mim. Procurei me aproximar e senti vontade de me afastar quando fiquei frente a frente com ela! Horrível!!! Ela era horrível demais!!! Assustadora! Era em tudo, mais do que eu poderia imaginar para uma iara do mal.

Tinha um olho cego que era branco. O miolo do olho era branco e a bolota era amarelada com uns fios finos de veias que marcavam e diferenciavam ainda mais aquele miolo branco! O cabelo grisalho enorme, solto caído nas costas era áspero e tinha um cheiro de folha seca misturado com o cheiro de suor. Era um cheiro ruim! Ela poderia ter sido uma mulher bonita quando jovem, pois tinha uma composição do rosto em harmonia, com o nariz um pouco fino. Era esguia e tinha pele bem mais clara que a minha, mas em sua boca percebia aquela mesma forma de sorrir que vi no rosto do homem que me cercou quando eu era arrastado para o moedor. Era um meio sorriso mal. Como se estivesse vociferando maldições.

Fiquei frente a frente com ela e percebi que ela apenas me sentia. Não me via, mas de alguma forma sabia que eu estava lá. Seus lábios se abriram mais naquele sorriso macabro. Ela então baixou a cabeça e olhou mais abaixo em minha direção. Nesta hora ela deu um passo para frente e somente aí vi que ela era coxa. Tinha um pé mirrado, como se fosse o bulbo com a raiz de uma roseira, seco e retorcido, encolhido a altura da metade de sua perna esquerda. Ela se apoiava a um galho de árvore que prendia ao lado direito do corpo. Se prendia a ele como se seus braços fossem cipós enlaçados num galho.

Olhando para ela não seria tão feia, mas o todo gerava um mal estar enorme! Uma vontade de afastar dela, de estar longe... Ela era amedrontadora, fedorenta e suja! Não sei dizer se pelo composto de sua aparência ou se pela energia má que ela emanava, dava uma vontade grande de correr para longe. O estranho é que ela parecia estar me esperando e me recebia como se fosse uma conquista.

Ela recomeçou a cantar e o que antes eu não entendia, pois não escutava as palavras da música, se tornou compreensível. Ela cantava uma historia sobre a vastidão do mar. De pessoas que morrem, mas ficam caminhando pelo mundo dos vivos buscando vingança. De repente, a canção ficou mais rápida, com arrancos na voz, parecendo que era cheia de corridas e paradas. Nesta hora ela cantava sobre a vingança e falava que a vingança podia dar imortalidade ao homem, que não descansaria o espírito até que retribuísse dor a seus inimigos.

Cantou uma historia, dizia que tinha acontecido na época dos avôs dela e para minha surpresa a historia era parecida com a minha. Fiquei estático. Ela cantou sobre um negrinho mau, que por inveja traiu uma criança branca, que meigamente se propôs a brincar com ele. Para matá-la, o negrinho atraiu a pobre criança para uma ardilosa armadilha. A medida que ela cantava, meu coração ficou na garganta. Senti uma aflição tão grande, que achei que ia morrer! Tudo pareceu fazer sentido!

Estava explicada a razão para terem moído minhas pernas! Pensaram que de forma perversa eu matei o menino branco que caiu no buraco! Nem vi que ele tinha se machucado! Não queria ferir a criança! Tão logo pus meus pés no fundo do buraco, sem nem olhar para trás, me esgueirei pelas paredes de terra, gargalhando em brincadeira, e procurando ser mais ágil que ele. Disparei numa corrida e gargalhada até a cabana! Nunca sequer passou por minha cabeça que o outro menino tinha se machucado!

A música falou que o pai da criança morta adentrou na cabana e puxou o negrinho das trevas pelo pé. O levou até o moedor para castigar aquele gênio mal. O homem que me puxou pelos pés era o pai do menino, que alimentado pela raiva, sem análise ou conhecimento da situação, movido pelo preconceito, deu vazão a sua dor com a crueldade. O outro homem que tinha o sorriso debochado, assim como o da bruxa, era o espírito de vingança que garantiu que o homem agredisse o negrinho.

Parece que tudo parou. Nem mais escutava a mulher. Passado e presente vinham na minha cabeça. Não tinha dúvidas, aquela era a minha historia! Prestei mais atenção ao cântico da mulher e vi que ela cantava de uma forma invocativa. A música trazia na letra uma verdade sobre a forma como o negrinho cantado foi sacrificado, mas era um engano sobre o que realmente aconteceu e sobre a minha natureza! Falava do meu desespero, mas se referia a mim como um geniosinho do mal, que agrediu e matou a criança branca!

 Eu não fiz isto!!! O canto falava que não aceitei ter as pernas e pés espremidos, mas falava de mim como dono de um espírito mau, vingativo e poderoso, que me escondi naquela árvore a espera do momento certo de surgir da terra e dar poder aquele que eu escolhesse para ter poder do mundo dos mortos. Para despejar o mal e executar vingança. Nada disso era verdade! Eu só me escondi de medo e queria estar lá escondido ainda...

Aquela mulher cantava naquele lugar e motivada pelas lendas, que surgiram depois de minha morte e percorreram gerações, esperava me despertar e ganhar de mim o tal poder, vindo do mundo dos mortos. Ela desejava apoio e poder para executar mais maldade. Maldade era tudo que parecia preencher o seu dia a dia. 
A mulher parou de cantar e começou a conversar comigo. Dizia que tinha muito a me oferecer, que eu poderia ser muito feliz e realizado ao seu lado. Que iria cuidar de mim como mãe e me daria comida, agasalho e atenção. Que me protegeria e ninguém mais me machucaria por que juntos poderíamos acabar com qualquer pessoa que se aproximasse de nós querendo nos ferir. Passei a segui-la por onde quer que ela fosse.

Ela sentia minha presença e se incomodava comigo algumas vezes. Era claro que ela esperava uma força vinda de meu espírito, que eu não conseguiria lhe dar. Via que outros espíritos se aproximavam dela e davam a ela esta força. Eu apenas observava e ela às vezes pensava que era eu quem fazia aquelas coisas. Deixava bebidas e comidas para me agradar. Um homem cheio de feridas na pele era o que mais se deliciava com os presentes que ela deixava. Ele sempre seguia aqueles que ela mandava seguir. Sentia nojo de tudo que esta mulher fazia. Ela não fazia maldade com quem tinha sido mal com ela. Ela era má para qualquer pessoa! Muitas vezes me afastava dela e deles. Sentava a beira de um riacho que tinha lá perto e me perdia no tempo.

Acompanhei o passo a passo desta mulher por muitos anos. Do dia que me acordou até o dia da sua morte. Vi muitas atitudes dela e aprendi muito, muito mesmo! A aparência feia, o  andar manco, com a aquele pedaço de perna com um pé mirrado, os olhos diferentes tendo um deles totalmente branco, a cabeleira desgrenhada e comprida, era tudo também uma forma de camuflagem. Uma garantia de afastar o sofrimento, vindo muitas vezes pelos outros. A feiura e o jeito mal eram também formas de proteção e de garantir que os agressores se mantivessem longe.Aprendi sobre isto.

Aquela mulher vivia uma vida de solidão, e mesmo não parecendo, tinha lembranças boas e felizes. Eram poucas, mas ela tinha lembranças de uma época que se sentia uma criança amada. Quando era ainda uma menininha, sob os cuidados de sua mãe. Lembrava-se de ouvir, mesmo ainda pequenina, as pessoas dizendo que ela era uma aberração. Que traria azar e atrairia maldição para o vilarejo onde vivia.
A mãezinha a protegia e ensinava que a vida era para pessoas que fossem independentes. Apesar da grande limitação que a perninha lhe trazia, a mãe sempre a estimulou a andar, a correr a agir como se tivesse os dois pés. Devia ter seu próprio caminho. A menina foi criada ouvindo da forte mãe: Olhe a vida de frente! Siga seu caminho com passos firmes. Os passos firmes não virão dos seus pés, mas dos seus olhos. A forma como você vê o mundo lhe dará firmeza em sua caminhada. A mãe pegava no rostinho da criança, erguia seu queixo e lhe dizia: Olhe as pessoas de frente! Não abaixe o olhar. Siga seu rumo e não permita que ninguém faça de você uma presa. Um animal ferido e que precisa ficar escondido ou preso é um animal fraco. Seja livre, pequena criança! Descubra como vencer!

A bruxa lembrava-se de tais palavras, como se o som da voz que vinha de seu passado tivesse o poder de acalentar o seu rosto. Ela chegava a virar a face em direção ao ombro como se estivesse sentindo ainda a mão da mãezinha a lhe acarinhar. A mãezinha dela morreu, quando ainda tinha seis anos. Falo mãezinha, por que em suas lembranças era assim que ela se referia à sua mãe. Com carinho e ternura, sentimentos que pareciam inexistir naquela mulher, que hoje desdenhava da vida com tanta frieza...

Ela era só. Muito só. Ser procurada pelas pessoas que desejavam seus serviços de maldade lhe dava poder, mas continuava muito só. Ser procurada para fazer algo às escuras, dava a ela o poder de saber das fragilidades e agruras das pessoas, que no dia a dia se mostravam agradáveis e envolvidas com a vida em comunidade. A mesma vida que lhe privaram viver por ser a “imagem do mal”.

Imagem do mal! Foi esta a frase que marcou sua vida, proferida sobre ela, ainda menina, sem marcas de mocidade no corpo, sem condição de defesa ou sobrevivência, quando a deixaram na mata no meio da noite, sem comida, bebida, agasalho...
Foi deixada ali. Aprendeu a sobreviver na mata. Comendo dos frutos da terra, bebendo das águas dos rios, até que alguns escravos fugitivos a encontraram. 

Deram a ela proteção, mas dela fizeram uma escrava e com a mesma crueldade com que foram tratados, tratavam a aleijada menina branca. Ali entre eles, conheceu detalhes sobre o uso das ervas, sobre a invocação de espíritos, tanto da natureza como os de homens desencarnados. Aprendeu a lidar com as trevas e a barganhar com ela. Apesar de estar junto dos escravos fugitivos, não se permitiu deitar com eles ou comer junto a eles. Temia e se mantinha distante.

Teve atitudes para que pensassem que era louca. Ouvindo uma historia deles, percebeu que tinham horror a pessoas que bebiam sangue de animais. Eles consideravam que pessoas que faziam isto tinham pacto com as forças das trevas. Falavam disso quando contavam as historias de sua terra. A menina então tornou como hábito, o beber sangue que se tornou algo comum para ela. A vontade de vomitar e o choro vieram forte nas primeiras vezes que pegou um passarinho, torceu seu pescoço e chupou o sangue deixando-o escorrer por seu pescoço, para que fosse mais visível para os escravos o que estava fazendo.

Da primeira vez, ficou dois dias sem se alimentar direito, mas soube naquela mesma noite, que o nojo e angústia de beber o sangue do pequeno passarinho, quando ele ainda parecia estar vivo, valeu a pena! Aquela atitude a livrou de sentir-se novamente morta, amassada embaixo de um homem que a machucava.Da primeira vez que um deles fez isto, ela sangrou  pelas partes onde nunca soube que poderia sentir tanta dor! 

A partir deste dia, passou a dormir em árvores, o que nem sempre era o suficiente para mantê-los longe. Então, quando bebeu sangue, se afastaram e passaram a ter medo dela também. Daí em diante, sempre buscava um pequeno animal para manchar-se com seu sangue, manchar-se, pois não o bebia mais, e assim, pelo sangue das pequenas rolinhas seu próprio sangue deixava de ser derramado. Não mais sentiu a dor e o sangue escorrendo, pelo rasgar de suas entranhas.

Quando ela ia dormir, a cena diária era grotesca. De uma forma animal, ela grudava os dedos no tronco de uma árvore e subia até os galhos mais fortes, que fossem capazes de sustentar seu corpo. Ali ela tentava acomodar-se. Olhava as estrelas, conversava com seus amigos invisíveis, voltava a seus pensamentos passados, até que de exaustão dormia. Nas noites chuvosas ela mantinha a mesma situação, mas escolhia alguma árvore com mais folhagem e dormia ali, no alto, independente do frio ou da umidade, dos raios e dos trovoes. Misturava-se à arvore e dormia.

Estava eu ali repensando a vida daquela mulher, uma bruxa. Era isto que ela era pra mim. Era claro que não era tão ruim como parecia, mas era acompanhada por seres ruins e de certa forma, eles influenciavam muito as suas ações. Apesar de saber disso, não podia negar: na vida ela fez escolhas e em suas escolhas, optou por compactuar e conviver com o mal.Difícil pensar sobre isto... Parece frio e sem humanidade, mas apesar dela ter feito coisas estranhas para se defender, atraiu para si, pela sintonia do ato e dos sentimentos de medo e autodefesa, muita força maléfica!

Criou sintonia com outros espíritos que também tinham sentimentos de medo e de revolta. Espíritos que não conseguia ou queriam deixar a terra depois da morte, porque tinham medo, assim como eu, ou por serem cheios de sentimentos de vingança e de maldade.E estava eu ali...

Saí pensando. Chutava a terra em todos os poucos passos que dava. Uma angustia começou a aparecer no meu peito à medida que eu pensava e analisava as coisas da vida. Tem cosias que eu não concordo! Será que aquela mulher que antes foi uma menina maltratada, desde o nascimento, quando já estava com sua perninha mirrada, quando tinha no corpo a prova de suas limitações, teve escolha para se manter boa? Uma menina que foi abandonada ao relento, com fome e medo, depois de agredida por vingativos, poderia apresentar alguma ternura? Poderia não ser uma pessoa má? Não sei dizer, mas o que sei é que muita coisa má que ela faz não precisaria ser feita. Não sei quem é pior. Ela que alimenta os lobos que pedem maldade ou os lobos em forma de gente que buscam socorro para fazer a dor.

Cheguei a meu refúgio. Percebi que de alguma forma eu poderia ajudá-la. Se ficasse por perto dela, poderia pelo menos evitar que fosse consumida por todos aqueles espíritos que lhe sugavam a força vital. Sentado novamente, na beira do riachinho, comia algumas folhinhas verdes de capim. Eram azedinhas. Gostosas... Via o sol se por, sentia uma paz enorme depois daquele amontoado de pensamentos.

Ter escolhido ajudá-la me fez sentir bem. Aquele dia em especial eu olhava o céu e achava uma beleza maior, que nem sei explicar a razão! Era normal ter aquele céu, mas eu o via de uma forma mais bonita... As nuvens estavam profundas e pareciam mais fofas que o normal. Engraçado, parece que fiquei muito tempo ali, mas na verdade foi pouco o tempo. Quando me levantei, me sentia mais velho. Tinha o corpo de menino, mas alguma coisa tinha mudado. A maneira como me sentia ficou mais serena. Sentia-me mais seguro. Era diferente, apesar de não saber explicar o que eu sentia. Levantei-me e caminhei mais seguro. Era como um adulto.


A bruxa sempre sentava numa pedra baixa, abria as pernas e afundava as saias grosseiras entre elas. Escorava o cotovelo direito na coxa e ali ficava. A frente desta pedra baixa tinha outra pedra. Uma espécie de altar que também era usado como mesa. Perto, havia uma quantidade de coisas, como se fossem lixos. Amarrados de ervas, algumas secas e outras verdes. Também tinha umas águas misturadas e muitos riscos feitos no chão.

Eu sempre ficava nas proximidades do lado direito. A pedra mesa, era onde ela jogava outras pedrinhas, poeira de terra ou pedaços de mato seco que dizia ter poder para revelar, para aqueles que a procuravam, o que seria o futuro. Era engraçado e ao mesmo tempo curioso... Existiam algumas pedrinhas mais vermelhas e outras que ela prendia dentro de um saquinho de pano. Fazia as suas invocações e jogava sobre a mesa de pedra. Dependendo da forma como caiam, ela ia dizendo coisas e sempre acertava, mas não era por causa da posição que as pedras caiam, e sim porque os espíritos que se alimentavam dela sopravam em seu ouvido o que ela precisava saber.

Ela recebia dinheiro por seus favores. Lá ela também entregava poções que faziam as mães meninas perderem seus bebes. Alguns remédios que ela fazia podiam ser colocados gota a gota na bebida de alguém para que morresse devagar, definhando sem ter uma razão e assim não levantar suspeitas. Tinha também pedidos diferentes, que ela prometia atender por rezas e acabavam sendo atendidos mesmo, o que fortalecia ainda mais a crença do povo da cidade sobre o seu poder.

Ela usava das propriedades da natureza a seu favor, e às vezes, era inspirada pelos maus agouros que estavam sempre ao seu redor. Outras vezes quando ela dizia que aconteceria algo, era o suficiente para acontecer. Assim que as pessoas saiam de lá já havia espíritos seguindo para garantir o que ela disse.Engraçado é que a maioria destas pessoas chegava acompanhada por quatro, cinco e até doze outros espíritos que reagiam de forma diferente. 

Conto agora sobre um dos dias piores. Teve o caso de uma mulher que foi até a bruxa por ter inveja do filho de outra mulher que lhe era parente. Este filho era uma pessoa feliz e bondosa com sorte entre as moças, enquanto o seu era aborrecido, preguiçoso e sem graça. A mulher não aceitava a comparação e queria que seu filho fosse o mais querido da família. Não achava justo que seu filho fosse menos que o outro.Imediatamente a bruxa cuidou para que algo fosse feito para adoecer o jovem parente. Não disse o que faria, só afirmou que o filho querido seria mais visto e reconhecido. 

Quando a mãe invejosa chegou lá, vi que um espírito que a acompanhava, um dos vários outros, ficou enraivecido. Ele esbravejava, rogava pragas e afrontava os companheiros da bruxa. Não queria que nada fosse feito contra o outro rapaz, pois ele se alegrava de ver a inveja e o despeito que a mulher tinha.Este homem que acompanhava a mãe foi um dia o pai de uma criança amada, que ela repugnou e trouxe a morte sobre o pequeno. Este espírito se alegrava ao ver a insatisfação e a dor por ela não ter o filho que desejava e não queria de forma alguma, que ela deixasse de sentir aquele espeto dentro do coração todo dia quando comparava os dois.

Após a visita desta mulher, a bruxa invocou forças para adoecer o jovem parente, para lhe fazer acidentar de forma que ficasse desmontado em uma cama, emburrecido e sem reações. Espíritos foram para a casa do jovem, buscando espreitar seus passos em busca de provocar o acidente. Demoraram a voltar, mas depois de oito dias voltaram aborrecidos por que o jovem não criava situações para que eles pudessem agir. Por não ter vícios e morar numa casa tranquila, eles estavam enfraquecidos. Não conseguiam se alimentar, beber e sentiam como se estivessem numa prisão. Nada do que queriam fazer acontecia.

Voltaram e desistiram, mas se aquela mulher queria confusão, ela teria confusão, foi assim que disse um deles em meio a gargalhadas e agachamentos no chão, como se estivesse louco. Era uma voz melodiosa e esganiçada... Repetia várias vezes: Ela vai ter! Ela vai ter!

A mulher retornou à mesa de pedra com um sorrisinho no rosto. Trouxe uns presentes para a bruxa e lhe deu dinheiro também. A bruxa lançou as pedrinhas, olhou e fechou a cara. Repetindo o que seus espíritos sussurraram disse: Mulher atrevida! Você destrói e mata. O mal que quer para o outro virá para você! Nesta hora, a bruxa gargalhava de forma sinistra e os espíritos pulavam como se estivessem dançando. A cara de pavor daquela mulher era grande. Saiu de lá correndo levantando a saia volumosa, e em prantos entrou numa carroça. Não tive noticias mais do que aconteceu com ela. Imagino que só de pensar na cumbuca de abelhas que colocou a mão, os seus dias não foram mais os mesmos.

Dia a dia a coisas se repetiam. Pedidos semelhantes. Sentimentos semelhantes. Espíritos sugadores semelhantes. Mas o pior estava por acontecer e aí entendi que realmente deveria estar por perto. Um dia, um homem grande, grosseiro com um chicote na cintura chegou perto da bruxa. Não quero falar muito disto, mas me dá muito nojo só de lembrar... Ele pedia para sangrar uma menina. Foi assim dia por dia... Quando a bruxa iria ceder, já que começou a achar que isto lhe daria mais poder, resolvi enfrentar aquele homem enorme, que era um espírito exilado.

Para minha surpresa, quando falei com ele, ele se assustou. Parece que nunca tinha me visto ali. Veio como se fosse para me matar, mas nesta hora vi descer do céu um monte de crianças. Menores que eu, na companhia de uma mulher. Era muito grande a luz, mesmo durante o dia. O homem ruim saiu de lá levando consigo outros três. Nunca mais os vi. Fiquei curioso para entender o que aconteceu, mas só entenderia tempos depois.

Naquela mesma tarde a bruxa morreu. Simplesmente morreu. Caiu por terra quando andava pela mata. Não teve ninguém para sentir sua falta e ir procurá-la, apesar de muitas pessoas irem até a mesa de pedra esperando serem atendidas. As pessoas da comunidade não tiveram desejo de ir procurá-la. O corpo dela ficou caído no chão, sem vida, abandonado por muitos dias e decidi novamente adormecer ao pé da minha árvore protetora.

Não dormi muito tempo desta vez, só não sabia o que fazer depois que ela morreu. De alguma forma durante anos, minha vida foi preenchida pelo observar, acompanhar e às vezes até soprar nos ouvidos de algumas pessoas, que não fossem lá buscar os remédios, que ela fazia para o mal. Muitas vezes fazia os potes caírem e se quebrarem. Muitas mulheres desistiam de voltar lá para pegar outro líquido de morte de criança. Algumas choravam muito depois e arrependidas, acolhiam as pequenas vidas que viriam. Achavam até que era vontade de Deus o remédio ter caído e que era um sinal.

O que eu faria agora? Não tinha para onde ir. Não sabia o que fazer. Nem dormir como antes eu conseguia. Comecei a sentir uma insatisfação enorme. Grande demais! Um vazio misturado com saudade. Queria morrer. Mas eu não podia morrer de novo e quando pensei nisto, mais uma vez me vi ali, preso a um corpo no chão. Com as pernas moídas, fechando os olhos, imaginado o mar, o barulho das ondas... tudo outra vez...


Um comentário:

  1. Tão afrontador e profundo. De um teor de sufocamento que me prendeu até a última palavra, afim de que a sensação de asfixia passasse. Letras, parabéns pelo DOMínio sobre elas!

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